Projeto incentiva estudantes e resgata identidade rural em São Pedro do Ivaí
Projeto “Guardiões da Terra", desenvolvido no Distrito de Marisa, foca na identidade, o pertencimento e a valorização do campo

Uma experiência pedagógica desenvolvida no Colégio Estadual do Campo do Marisa, no Distrito de Marisa, em São Pedro do Ivaí (PR), levou estudantes a pesquisar a história da comunidade, conhecer diferentes formas de produção agrícola e compartilhar o aprendizado com crianças da rede municipal. O projeto “Guardiões da Terra: O Resgate da Identidade, Raízes e Sustentabilidade Geracional no Distrito de Marisa”, desenvolvido pela professora de Língua Portuguesa Érica Pereira da Silva Lagares por meio do Programa Agrinho, teve como foco a identidade, o pertencimento e a valorização do campo.
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A iniciativa surgiu a partir da percepção de que muitos alunos são filhos e netos de agricultores, mas nem sempre reconhecem os conhecimentos, a história e a cultura presentes na realidade em que vivem. “Comecei a observar que muitos dos meus alunos eram filhos e netos de agricultores, conviviam diariamente com o campo e conheciam a rotina das propriedades, mas nem sempre percebiam o quanto aquela realidade carregava história, conhecimento, cultura e valor”, relata Érica.
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A partir dessa constatação, a professora buscou levar o conteúdo para além da sala de aula. Os estudantes pesquisaram a origem do Distrito de Marisa, conversaram com moradores e registraram memórias da comunidade. Entre as atividades esteve uma entrevista com José Isalberti, ex-prefeito e atual vereador, que relatou aos alunos aspectos da criação, da origem do nome e do desenvolvimento do distrito.
Da lida no campo à sala de aula
O projeto também levou os estudantes a conhecer diferentes modelos de produção agrícola. Em uma propriedade de agricultura familiar da Vila Rural, eles acompanharam o cultivo de frutas e hortaliças destinadas também à alimentação escolar. O engenheiro agrônomo Adilson apresentou técnicas de cultivo, cuidados com o solo e a importância da agricultura familiar.
Em outra etapa, a turma visitou uma propriedade de produção em grande escala. O agrônomo Carlos Backes mostrou tecnologias de agricultura de precisão empregadas no plantio, na colheita e no armazenamento de grãos.

Para Érica, as visitas ajudaram os alunos a compreender que os conhecimentos transmitidos pelas famílias também envolvem ciência e tecnologia. “Nesse percurso, os estudantes perceberam que tradição e tecnologia não são opostas. Pelo contrário: podem caminhar juntas para produzir mais, preservar os recursos naturais e garantir alimentos para as pessoas”, afirma.
Segundo a professora, a experiência também contribuiu para modificar a percepção de alguns alunos sobre a vida rural. “Eles passaram a perceber que suas famílias possuem saberes importantes e que o campo não é sinônimo de atraso. É um espaço de conhecimento, trabalho, tecnologia, produção, história e possibilidades.”
Alunos assumem papel de professores e ensinam sobre a própria cultura
Depois das pesquisas e visitas, os estudantes passaram de participantes a responsáveis por compartilhar o conhecimento adquirido. Eles se tornaram os “Mestres Guardiões”, preparando estações de aprendizagem, jogos pedagógicos, mapas mentais, relatos e outros materiais sobre história local, agricultura, sustentabilidade e cuidado com a terra.
As atividades foram realizadas no contraturno e receberam crianças da Educação Infantil e dos Anos Iniciais do município. A proposta fez com que os próprios estudantes ensinassem conteúdos que haviam pesquisado e vivenciado.

“Foi emocionante ver alunos que inicialmente não se reconheciam como protagonistas perceberem que tinham algo importante para ensinar”, conta Érica.
Para a professora, o principal resultado não está apenas nos materiais produzidos, mas na mudança de percepção dos estudantes sobre suas próprias origens. O projeto buscou mostrar que a rotina familiar no campo também envolve conhecimento, responsabilidade e inovação.

“Não estávamos apenas trabalhando conteúdos de Língua Portuguesa. Estávamos trabalhando identidade, pertencimento, autoestima e valorização das próprias origens”, destaca.
"Conhecimento já está ao nosso redor"
Érica afirma que a experiência reforçou a importância de utilizar a realidade dos estudantes como ponto de partida para o ensino. “Muitas vezes, o conhecimento que precisamos ensinar já está ao nosso redor. Está na memória de um morador, nas mãos de um agricultor, na história de uma família, no solo de uma propriedade e na realidade vivida pelos nossos estudantes", afirma.

Ao final, o projeto passou a ser também uma forma de preservar a memória da comunidade e aproximar os alunos de suas raízes. “O Guardiões da Terra foi, acima de tudo, um reencontro dos estudantes com suas próprias raízes”, resume a professora, que faz questão de destacar que a iniciativa contou com o apoio da diretora Eliana Vivan e da pedagoga Zelicleide.

