Protesto em Ortigueira fecha a Rodovia do Café
A intervenção de índios da Reserva de Queimadas à manifestação contra o pedágio, ontem, em Ortigueira, fez com que o bloqueio da BR-376, que teria duas horas de duração, se estendesse noite adentro. A mobilização visou chamar atenção para o fato de o município ser o único do Paraná a estar “ilhado” entre duas praças de pedágio e cobrou isenção da tarifa a moradores da cidade. Até o fechamento desta edição, a rodovia continuava bloqueada.
Após concentração em frente à Igreja Matriz, os cerca de 300 manifestantes partiram pela Avenida Paraná até o trevo de acesso à Rodovia do Café. Antes do bloqueio, houve negociação com policiais rodoviários federais sobre o tempo de permanência na rodovia. A CCR Rodonorte, que administra o pedágio, obteve liminar judicial baseada no direito de ir e vir, mas chegou-se a um meio termo em face do direito de livre manifestação.
Foi acordada uma dinâmica de 30 minutos de bloqueio por 15 de liberação, por duas horas. O trato funcionou no primeiro intervalo, mas, daí em diante, os índios caingangues da Reserva de Queimadas, os mesmos que bloquearam a ferrovia por 3 dias em novembro de 2013, assumiram a frente da situação.
Apoiados por membros das Reservas Apucaraninha (Londrina), e Cândido de Abreu, (Manoel Ribas), os nativos anunciaram a interrupção por tempo indeterminado. “Se nossos amigos brancos têm medo de bloquear, nós não temos”, disse o cacique Antônio Vitoriano. “Queremos que eles construam uma trincheira no acesso da aldeia. Quinze já morreram atropelados ali”, completou.
Segundo o inspetor Haroldo Luis Rauch Júnior, da PRF, apesar dos índios terem tomado o controle do ato, os membros do movimento serão responsabilizados pela quebra do acordo. “É possível que seja aberto ação civil pública por desobediência e cobrada multa”, disse.
“ESTRANHEZA”
Em nota, a CCR RodoNorte declarou não ser possível conceder isenção da tarifa aos moradores de Ortigueira, já que a Lei Estadual 15.607/2007, que possibilitava o benefício, foi considerada inconstitucional, e não cabe recurso. Cita os benefícios da concessão, como arrecadação de R$ 26,5 milhões em ISS. O evento, diz a nota, é recebido com “estranheza” pela empresa, devido ao “excelente relacionamento” com a comunidade. Segundo a empresa, houve um (e não quinze) atropelamentos de índios entre 2006 e 2013.
“Estamos ilhados”, dizem manifestantes
Representantes de vários segmentos participaram dos protestos na BR-376 pelo Movimento Ortigueira Livre. Um deles foi o empresário Jacob Guenra, do ramo de cerâmica. “Concorremos com empresas de outros municípios sem pedágio e não repassamos o custo ao preço final. Se não tivesse cobrança, poderíamos empregar mais cinco funcionários”, argumenta. O agricultor Marcos Eidam reclama. “Nas safras, gastamos R$ 6 mil em diesel e R$ 10 mil em pedágio”, compara. A prefeita Lourdes Banach disse não ser contra o pedágio em si. “Mas queremos a redução dos preços”. Também prestigiaram membros do MST, vereadores e comerciantes.
CALOR E SEDE
Até às 19 horas, havia 10 quilômetros de congestionamento no sentido norte e 5 no sul. O caminhoneiro Paulo Francisco foi um dos que enfrentaram calor e sede, durante horas de espera. Ele tinha acabado de descarregar tintas em Arapongas e retornava para Esteio, Rio Grande do Sul. “É desagradável ficar parado, mas a reivindicação dos moradores tem fundamento”, opinou. A BR-376 é a principal ligação entre Londrina ao Porto de Paranaguá.
