Sob ameaça de impeachment, presidente do Paraguai renuncia
Saída ocorre após fechamento do Ueno, instituição ligada ao antigo grupo empresarial do presidente e que deixou clientes sem acesso aos depósitos

Santiago Peña anunciou nesta quinta-feira (5) sua renúncia à Presidência do Paraguai, pressionado pela perda de apoio no Congresso e pela crise provocada pelo fechamento do banco digital Ueno. A instituição, com a qual o economista manteve vínculos societários, deixou milhares de correntistas sem acesso ao dinheiro.
-LEIA MAIS: Bolsonaro pede para receber Marinho e Tereza Cristina em casa em meio a articulações no Senado
A decisão foi comunicada em vídeo enquanto os deputados se reuniam para discutir um processo de impeachment. O movimento pelo afastamento havia conquistado adesão de parlamentares da oposição e do próprio Partido Colorado, legenda de Peña.
Ao anunciar a saída, o presidente pediu desculpas à população e afirmou que buscava preservar a estabilidade política, a paz social e as instituições democráticas. Ele havia assumido o governo em 2023, com mandato previsto até 2028. O vice-presidente, Pedro Alliana, deve sucedê-lo, embora também seja alvo do pedido de impeachment.
O isolamento de Peña se agravou depois que lideranças governistas passaram a defender sua saída. Entre elas estão Horacio Cartes, presidente do Partido Colorado e mentor político do mandatário, e Basilio Núñez, que comanda o Congresso.
A crise teve origem na liquidação do Ueno, iniciada pelo Banco Central paraguaio na terça-feira (3). A autoridade monetária apontou falta de recursos para honrar os compromissos da instituição e problemas relacionados a empréstimos concedidos a empresas vinculadas ao banco.
Com aproximadamente 3 milhões de clientes, o Ueno concentrava cerca de US$ 850 milhões em depósitos públicos, incluindo recursos do Instituto de Previdência Social. Peña foi acionista do grupo controlador da instituição até março de 2025.
No Congresso, os adversários do presidente apresentaram acusações de conflito de interesses, manipulação de regras e desvio de recursos previdenciários. Também alegaram que o Banco Central teria ocultado irregularidades. O pedido de impeachment foi apresentado por 35 deputados.
Antes de renunciar, Peña havia defendido a responsabilização dos envolvidos e promulgado uma lei para acelerar a devolução do dinheiro aos clientes.
A investigação também atingiu dirigentes da instituição financeira. Executivos se entregaram após a expedição de mandados de prisão, e a Procuradoria acusou formalmente 27 pessoas ligadas ao banco. A Justiça determinou o bloqueio de bens dos investigados.
O fechamento provocou protestos e aumentou a preocupação de correntistas com outras instituições. A Associação de Bancos do Paraguai informou que seus integrantes atendiam à demanda de clientes que transferiam contas do Ueno e afirmou que o sistema financeiro seguia funcionando normalmente.
