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Câmara de SP reserva R$ 700 mil para "lanchinho" dos vereadores

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ROGÉRIO GENTILE

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O cardápio é diversificado. No café da manhã há frutas, sucos, queijo prato e de minas, presunto magro, peito de peru, torradas e, claro, opções de bolos caseiros.

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No almoço ou jantar são oferecidas saladas de folhas variadas e "proteínas" (carne bovina, suína, frango ou peixe), com ao menos quatro acompanhamentos.

O lanchinho da tarde tem sempre caldos, pizzas, esfirras, sanduíches e salgados (miniquiches, empadas, coxinha ou bolinho de bacalhau). E doces: brigadeirão, pudim, manjar branco, musse, torta ou gelatina.

Mas o melhor mesmo, para os exclusivos 55 clientes do "restaurante vip" da Câmara Municipal de São Paulo, é o preço. Ninguém paga absolutamente nada. O custo das refeições dos vereadores é bancado pelo contribuinte.

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O Legislativo paulistano pretende gastar até R$ 769,3 mil nos próximos 12 meses com a alimentação dos representantes da cidade, servida quando há sessões no plenário ou reuniões das comissões parlamentares de inquérito.

A contratação da MD Eventos, Viagens e Turismo, que é responsável pelo serviço, foi publicada no "Diário Oficial" do dia 10 de agosto.

A sala do lanchinho fica ao lado do plenário, devidamente protegida por um GCM (guarda civil metropolitano) que, aliás, nunca pôde participar dessa boquinha.

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Recentemente, alguns vereadores ficaram irritados quando souberam que assessores, durante sessões longas, estavam matando a fome com a comida servida ali.

VAQUINHA

O salário bruto de um vereador paulistano é de R$ 15.031,76. Cada gabinete dispõe de uma verba de R$ 164.433 para o pagamento mensal de 18 assessores.

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O parlamentar dispõe também de uma quantia anual de R$ 282.037 para o custeio de serviços gráficos, assinatura de periódicos, deslocamentos pela cidade e materiais de escritório, além de carro oficial, correio e fotocópia.

Antigamente, segundo contam ex-vereadores e funcionários da Casa, o lanchinho parlamentar não era bancado com recurso público.

Os membros do Legislativo faziam uma vaquinha e um funcionário comprava os alimentos em uma padaria.

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Em 2007, o então presidente da Câmara Antônio Carlos Rodrigues fez uma licitação e contratou uma empresa para fornecer sanduíches, que podiam ser de queijo prato e presunto no pão francês ou de peito de peru e queijo minas, no mesmo tipo de pão. Frutas e refrigerantes também eram servidos.

De lá para cá, o cardápio foi encorpando. No ano seguinte, a Câmara passou a exigir também o fornecimento de peito de frango, mortadela e rosbife temperado com molhos alternados (mostarda, tártaro, rose, etc).

Em 2010, vieram o salame tipo italiano, a ricota, e a goiabada. Em 2011, a água de coco, importante para a reidratação parlamentar.

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Procurado pela Folha, o presidente da Câmara, Milton Leite (DEM), divulgou nota oficial na qual afirma que o contrato seguiu os trâmites legais. "Sobre o fato de o poder público custear esse tipo de despesa, a decisão foi tomada em conjunto pelos vereadores da Casa. Não foi uma decisão da presidência ou da Mesa Diretora."

Leite diz também que o "custo citado é apenas um teto para as despesas, pois o documento prevê a entrega de lanches sob demanda, ou seja, só será gasto o que for efetivamente consumido".

Segundo o presidente da Câmara, "a entrega de lanches ocorrerá em caráter excepcional para atender os vereadores em sessões que se prolongarem além do horário normal, o que se resume a uma vez por mês".

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O anexo do edital do pregão eletrônico, que pode ser acessado no site da própria Câmara, porém, prevê o atendimento em 442 ocasiões, de segunda à sexta-feira, das 15h às 23h, e aos sábados, domingos e feriados, das 7h às 23 h.

A assessoria de Leite diz se tratar apenas de uma reserva de verba e que o consumo efetivo será bem inferior.

Mário Schapiro, professor de direito da FGV, diz que o lanche com verba oficial não configura um ilícito, uma improbidade administrativa.

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"Mas é um gasto indevido do dinheiro público, irracional e incompreensível, que não atende ao interesse de uma sociedade democrática", afirma Schapiro.

Irene Nohara, livre docente em direito administrativo pela USP e professora do Mackenzie, tem outra opinião.

Para ela, o gasto com a alimentação pode ser justificado, considerando que muitas vezes os parlamentares precisam estar à disposição em longas sessões de votações.

"É necessário apenas verificar se o custo é compatível, mas, em princípio, não considero esse tipo de situação uma imoralidade", diz.

Ao analisar as despesas de Câmaras do interior, onde havia situações similares, o Tribunal de Contas do Estado considerou que gastos com lanches são "indevidos".

O Tribunal de Contas da União tem o mesmo entendimento. "Este tribunal tem considerado irregular a realização de despesas que não se coadunam com as atividades precípuas do órgão ou entidade, dentre as quais se enquadram as despesas com lanches e refeições", escreveu o relator Benjamin Zymler em um acórdão de 2010.

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