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'O pesadelo que estamos vivendo está bem documentado', diz historiador

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FERNANDA MENA, ENVIADA ESPECIAL

PARATY, RJ (FOLHAPRESS) - Nenhum assento para o público pagante da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) na Igreja Matriz ficou vazio na segunda mesa deste sábado (29). O encontro foi entre a romancista cearense Ana Miranda, cujas obras dialogam com fatos e personagens da nossa história, e o historiador João José Reis, referência mundial em escravidão, que acaba de receber da Academia Brasileira de Letras o Prêmio Machado de Assis, em geral concedido a romancistas.

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O debate, conduzido pela historiadora e biógrafa de Lima Barreto, Lilia Moritz Schwarcz, tratou do território fluído entre ficção e não ficção no tratamento da escravatura brasileira e da vida de escravos e negros alforriados do país.

"Costumo dizer que os romancistas são historiadores que fingem estar mentindo e os historiadores são ficcionistas que fingem estar dizendo a verdade", brincou Miranda, que leu trecho do recém-lançado "Xica da Silva - Cinderela Negra" (Editora Record).

A obra traz fatos históricos precisos e outros romanceados, identificados pelo texto em itálico. Já Reis, célebre por sua vasta e reveladora pesquisa em documentos de época, explicou como lida com as lacunas que os registros deixam.

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"Nós, historiadores, temos de ter imaginação e trabalhar com probabilidades e verossimilhanças para preencher os buracos que a documentação nos deixa. É um ofício 80% documentação e 20% imaginação", disse Reis, autor de "Rebelião Escrava no Brasil: a História do Levante dos Malês (1835)", obra de 650 páginas que desconstruiu o mito de passividade dos escravos africanos no país.

Ela e Reis falaram sobre os personagens sobre as quais se debruçaram, célebres e anônimos. Miranda disse que as mulheres sobre as quais escreveu de alguma maneira espelham a ela própria, e Reis explicou que, apesar de ter escrito sobre três ex-escravos que ascenderam socialmente após conquistarem a liberdade, esses eram minoria absoluta.

"A imensa maioria dos 5 milhões de escravos que chegaram ao Brasil, morreram escravos. Há que fazer reparação no país mesmo que não tivéssemos tido a escravidão. Basta para isso a desigualdade", disse, antes de ser muito aplaudido.

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Reis rememorou o discurso que fez na ABL na cerimônia do prêmio recém-recebido no qual destacou a importância e que chamou de sucesso das cotas raciais nas universidades brasileiras, criticou o fato de a obrigatoriedade de estudos sobre África ter sido retirada dos planos de educação pelo governo atual e sobre a escravidão contemporânea.

"A nova lei trabalhista permite certas práticas que podem conduzir a uma espécie de escravidão consentida", disse. "Isso porque o contrato negociado entre trabalhador e empresário pode valer sobre aquilo que está legislado. Essa reforma foi pactuada, não com a classe trabalhadora, mas com os empresários", concluiu, antes de se ouvir ecoarem pela primeira vez dentro a Igreja Matriz os gritos de "Fora, Temer".

Ao final, os autores falaram sobre o momento atual do país. "Parece que vivemos uma ficção. Um romance gótico, de terror", disse Miranda.

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"Estamos atravessando uma realidade muito dura. Quilombolas assassinados, massacres sistemáticos de índios. Poderes locais estão se achando com licença de fazer essas coisas. Não é ficção. Esqueça a ficção. O pesadelo que estamos vivendo está muito bem documentado", completou o historiador.

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