TNOnline

Leia a última edição Siga no Whatsapp
--°C | Apucarana
Euro
--
Dólar
--

Geral

publicidade
GERAL

Tornar ciência partidária seria decretar o seu fim

Compartilhar no Facebook Compartilhar no Twitter Compartilhar no WhatsApp Compartilhar no Telegram
Siga-nos Seguir no Google News
Grupos do WhatsApp

Receba notícias no seu Whatsapp Participe dos grupos do TNOnline

REINALDO JOSÉ LOPES, ENVIADO ESPECIAL

BELO HORIZONTE, MG (FOLHAPRESS) - A biomédica Helena Nader, que presidiu durante seis anos a SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), principal órgão representativo da comunidade científica do país, diz que a ideia de criar um partido político voltado para defender os interesses dos cientistas seria péssima para a área.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
Associe sua marca ao jornalismo sério e de credibilidade, anuncie no TNOnline.

"Na minha visão, seria o fim da ciência porque, no momento em que ela se torna partidária, ela passa a separar as pessoas", declarou ela à Folha de S.Paulo durante a 69ª reunião anual da sociedade na Universidade Federal de Minas Gerais.

O encontro, que termina neste sábado (22), marca a despedida da pesquisadora da Unifesp do cargo -ela será substituída pelo físico Ildeu Moreira, da UFRJ.

Como presidente, Helena foi criticada por defender a necessidade de negociar com o governo Temer. Na entrevista, ela afirma que a polêmica está superada e que os cientistas precisam continuar dialogando com todos os setores da sociedade, embora não possam admitir retrocessos em áreas como o ambiente e os direitos humanos.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Durante a reunião da SBPC do ano passado, em Porto Seguro, a sra. foi duramente criticada por negociar com o governo Temer, chegou a ser chamada de pelega e quase entregou o cargo. Desta vez, manifestações contra Temer terminaram com elogios à sra. A sensação é de volta por cima?

Eu acho o seguinte: o que aconteceu em Porto Seguro ficou em Porto Seguro. Essa nova postura é a prova de que as pessoas entenderam que há necessidade de diálogo para se construir o Brasil que a gente deseja ter. Mais importante que isso, porém, foi o reconhecimento de que, ao lado dos erros, eu tive uma série de acertos que vão impactar de modo positivo o futuro da ciência brasileira.

Se a gente não tivesse mantido esse diálogo, o Marco Legal da Ciência, Tecnologia e Inovação [que deu mais liberdade para interações entre cientistas e setor privado] talvez tivesse sido outro, e quem teve protagonismo nesse processo foi a sociedade, não o Estado.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Diante dos cortes orçamentários brutais que afetaram o financiamento público da ciência no Brasil, a sra. acha que faltou planejamento nos anos de expansão da área no país, no segundo governo Lula e no primeiro governo Dilma? Teria sido possível evitar o pior desses cortes hoje se esse crescimento tivesse sido planejado com mais cuidado?

Eu acho que não. O presidente Lula não abriu a porta do cofre imediatamente. Primeiro veio a busca pela estabilidade. No segundo mandato, houve um aumento impressionante do financiamento da ciência e tecnologia, bem como uma expansão do sistema educacional que era necessária.

Nossa economia, porém, ainda não é estável. Tivemos um pico de investimentos no mandato da presidenta Dilma, que ainda era reflexo do mandato de Lula, mas, quando a economia começa a patinar, vêm também as quedas no orçamento para a pesquisa.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Inicialmente, isso não ficou tão claro porque o montante destinado ao Ciência Sem Fronteiras era muito elevado, mas isso mascarou uma queda cada vez mais vertiginosa do dinheiro que ia para o CNPq [principal órgão federal de fomento à pesquisa]. Ficou claro que precisamos de fontes mais constantes de financiamento.

Isso acabou culminando com o que a gente chamava de PEC do Fim do Mundo, que hoje já é a emenda constitucional do teto de gastos. A SBPC se posicionou claramente contra incluir a educação, a ciência, a tecnologia e a inovação nesse teto, e a nossa intenção é continuar lutando para que isso seja revertido. Como eu sempre digo, educação e ciência não são despesa, são investimento, e são o único caminho para colocar o Brasil no rumo certo de novo.

A sra. acha realista manter a campanha por essas alterações na emenda? Mesmo com as dificuldades políticas do governo Temer, tem sido difícil evitar que o Congresso aprove medidas de austeridade.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Acredito que sim. Na terça e na quarta passadas, tivemos dois dias fantásticos no Congresso, em reuniões organizadas pela Frente Parlamentar de Ciência, Tecnologia, Pesquisa e Inovação, com todos buscando alternativas e novas fontes de financiamento.

O papel do deputado Celso Pansera [PMDB-RJ, ex-ministro da Ciência] tem sido muito importante. Tivemos a Marcha Pela Ciência na Câmara, pela qual passaram os líderes de todas as bancadas. Acho que isso ajudou o pessoal a perceber que o diálogo é que constrói os avanços.

Durante a reunião deste ano houve discussões de bastidores sobre a possível criação de um partido político dos cientistas brasileiros, e há quem defenda o seu nome como candidata a deputada federal. Como vê essa movimentação?

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Olha, está escrito no estatuto da SBPC que ela não tem partido. Essa discussão, portanto, é de pessoas, não da SBPC. Na minha visão, seria o fim da ciência porque, no momento em que ela se torna partidária, ela não inclui, passa a separar as pessoas. É muito mais importante um movimento pela ciência percolando todos os partidos.

Pode escrever: não sou candidata e, aliás, fiquei chateada com essa história toda.

Voltando ao seu otimismo em relação ao diálogo com o Legislativo, essa conversa não tem ficado mais difícil durante o governo Temer? No que diz respeito à legislação ambiental e à questão indígena, a impressão é que tem aumentado a resistência do Congresso a levar as evidências científicas em conta.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Concordo, mas por isso mesmo o diálogo é importante. De fato, é preocupante quererem voltar atrás em aspectos do Código Florestal. Eu defendo a agropecuária brasileira, mas ela não pode tirar direitos humanos nem ferir o ambiente -aliás, ela já provou que pode ser muito produtiva sem causar esses problemas.

Se ainda demonstrassem que flexibilizar a legislação ambiental seria melhor para o povo brasileiro, traria mais educação, mais moradia, mais bem-estar social -tudo bem, então me tragam argumentos convincentes. O problema é que o que alguns querem fazer só vai aumentar as diferenças sociais e concentrar riqueza.

Está mais difícil mobilizar cientistas politicamente hoje? A descrença generalizada em relação à política também afetou a comunidade científica, certo? Não é estranho, diante dos cortes de verba, que a mobilização não seja mais intensa?

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Não sei te explicar o porquê dessa situação. As pessoas talvez estejam desanimadas, com aquela sensação de que não adianta mais lutar, então que cada um cuide de si. Para mim o que importa é que a gente pode, sim, tentar unir as pessoas num projeto comum. É importante que nas próximas eleições presidenciais a gente exija de cada candidato que assuma uma plataforma clara, verdadeira, do que pretende fazer em relação à ciência e deixe isso por escrito, de maneira que os cientistas possam cobrar. É algo que infelizmente não constou do programa de governo da presidente Dilma de forma clara, nem da Ponte para o Futuro do Temer, na qual não havia uma palavra sobre o tema.

Gostou da matéria? Compartilhe!

Compartilhar no Facebook Compartilhar no Twitter Compartilhar no WhatsApp Compartilhar no Email
Adicionar como fonte preferida no Google

Últimas em Geral

publicidade

Mais lidas no TNOnline

publicidade

Últimas do TNOnline

TNOnline TV