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Papéis de Gilberto Freyre são descobertos na França

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MAURÍCIO MEIRELES

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um conjunto de documentos de Gilberto Freyre (1900-1987), até então desconhecido, foi encontrado bem longe de sua casa, no Recife -onde até hoje está guardado seu acervo. O grupo de cerca de 600 papéis está na Universidade de Poitiers, na França, catalogado dentro do arquivo da instituição.

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Ainda é preciso um estudo detalhado do conjunto para saber do que trata --o que pode demorar--, mas uma análise preliminar revela uma série de anotações e fichamentos do autor.

Muitos estão com o timbre de universidades no exterior onde o intelectual pernambucano foi professor visitante, o que pode dar pistas sobre a biografia do autor --ou ajudar a localizar no tempo o momento em que começou determinadas pesquisas.

A universidade francesa e a Fundação Gilberto Freyre, no Recife, estão firmando uma parceria para que alguém vá do Brasil para analisar os documentos. A ideia é iniciar esse trabalho em 2018.

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Nos últimos meses, enquanto a descoberta era investigada, alimentou-se a expectativa de que entre eles estivesse o original de "Casa-Grande & Senzala", desaparecido há mais de 20 anos no Recife.

Uma análise preliminar, porém, foi feita por Fernanda Arêas Peixoto, professora do departamento de antropologia da USP, que estava na França por motivos pessoais. De acordo com ela, o conjunto não tem unidade para ser um livro.

JAZIGOS E COVAS RASAS

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A notícia frustra outra esperança, pelo menos em partes: encontrar, no arquivo, o "Jazigos e Covas Rasas", livro que completaria a tetralogia iniciada com "Casa-Grande e Senzala" e que nunca foi publicado.

Freyre contou, certa vez, que deixou a obra pronta coberta por um tecido vermelho, viajou e, na volta, não encontrou mais o manuscrito. Mesmo as anotações feitas por ajudantes --como frases de epitáfios em cemitérios portugueses-- sumiram. Só o prefácio do livro foi localizado até hoje.

A expectativa, agora, é haja pelo menos anotações sobre esse livro entre os papéis descobertos na França.

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Por tempos, houve dúvidas de que Freyre tivesse terminado a obra, que seria uma análise da sociedade brasileira a partir dos ritos de sepultamento. Não à toa, o título traz dois termos em contraposição: o jazigo, local suntuoso, e a cova rasa, onde os despossuídos são enterrados.

Freyre teria identificado nos dois dicotomias como as que viu em casa-grande e senzala, sobrados e mucambos, ordem e progresso --termas dos livros anteriores da tetralogia.

"Tive uma conversa com o professor Edson Nery da Fonseca [que trabalhou com Freyre] e ele até me apontou o lugar onde o original teria sido guardado", diz Jamille Barbosa, gerente de acervos da Fundação Gilberto Freyre.

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"Ainda não posso dar garantias, mas não é impossível [encontrar anotações do livro na França]."

Sobre o tema, o intelectual só publicou "Em Torno de Alguns Túmulos Afro-Cristãos", em 1959, a partir da pesquisas em cemitérios na África --mas é uma obra breve.

Quem alertou a Fundação Gilberto Freyre sobre a existência do material foi um jornalista brasileiro chamado Carlos Marques, radicado em Paris, que fez a descoberta durante uma visita à Universidade de Poitiers.

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A instituição tem uma tradição de intelectuais que estudaram o Brasil, além de ter um dos principais acervos de de cordéis fora do país.

A faculdade de letras de Poitiers foi dirigida por Raymond Cantel, importante pesquisador francês da literatura brasileira, que morreu em 1986. O início da coleção de cordel é dele --mais tarde, recebeu uma doação da escritora Nélida Piñon.

Até agora, não se sabe como os papéis foram parar naquele acervo. Uma possibilidade é que tenham chegado lá durante a preparação de "Casa-Grande & Senzala" para a coleção Archivos, iniciativa criada pela Unesco nos anos 1980 para a publicação de edições críticas de grandes obras latino-americanas.

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Como Edson Nery da Fonserca, morto em 2014, é um dos organizadores da edição e trabalhou com Gilberto Freyre, há uma chance de a doação ter sido feita por ele --mas nenhum registro foi encontrado.

O pesquisador também ajudou o intelectual em "Jazigos e Covas Rasas", o que aumenta a expectativa de que haja algo sobre o livro lá. Suas anotações também nunca foram localizadas.

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