TNOnline

Leia a última edição Siga no Whatsapp
--°C | Apucarana
Euro
--
Dólar
--

Geral

publicidade
GERAL

ATUALIZADA - Doria não fala, e secretário estima recolhimento forçado de 100 usuários

Compartilhar no Facebook Compartilhar no Twitter Compartilhar no WhatsApp Compartilhar no Telegram
Siga-nos Seguir no Google News
Grupos do WhatsApp

Receba notícias no seu Whatsapp Participe dos grupos do TNOnline

ARTUR RODRIGUES

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A gestão João Doria (PSDB) prevê que pode recolher compulsoriamente até 100 usuários de crack. A estimativa foi feita pelo secretário municipal da Saúde, Wilson Pollara, na manhã deste sábado (27), um dia depois da Justiça autorizar a prática de condução coercitiva.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
Associe sua marca ao jornalismo sério e de credibilidade, anuncie no TNOnline.

"Se consideramos que lá [na cracolândia] tem 600 pessoas, estou falando de 200 com problemas psiquiátricos, das quais de 80 a 100 vão precisar de uma condução coercitiva", disse Pollara.

A solicitação da gestão Doria à Justiça foi feita às pressas nesta semana. Ela ocorreu após a desarticulada ação no último domingo (21), quando policiais civis e militares, ligados ao governo do Estado, prenderam traficantes e desobstruíram três vias tomadas havia anos por viciados.

O novo programa anticrack de Doria, porém, não estava pronto. Uma das promessas era o cadastramento prévio dos usuários, para que recebessem encaminhamentos corretos, como tratamento médico.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Sem isso, em meio a ações atabalhoadas e discursos oficiais dissonantes, o que se viu foram viciados espalhados pelas ruas e a formação de uma grande concentração deles na praça Princesa Isabel.

O prefeito, no entanto, se recusou a falar sobre o assunto durante evento do programa de zeladores Cidade Linda, na Pompeia (zona oeste de SP).

A estimativa do secretário é feita com base em avaliação da prefeitura que mostra que apenas metade das pessoas com problema psiquiátrico aceita tratamento.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Pollara afirma que a avaliação inicial será feita por agentes de saúde com base em um protocolo estabelecido por psiquiatras. Caso se julgue necessário o recolhimento, isso será feito com uma ambulância. A pessoa será levada a um centro psicossocial, onde um psiquiatra vai avaliar se pede ou não à Justiça a internação compulsória.

Uma reunião neste sábado na prefeitura irá definir quais os critérios para retirar à força uma pessoa da região da cracolândia. Isso somente poderá ser feito em ação conjunta de agentes de saúde, agentes sociais e integrantes da GCM, a Guarda Civil Metropolitana. Não se sabe ainda, por exemplo: haverá abordagem individual em meio a um grupo de dependentes, o que poderia provocar um confronto? O dependente químico que estiver em condições de ao menos dizer que não quer ser levado poderá ainda assim ser arrastado à força pelos guardas?

A decisão favorável à retirada de dependentes das ruas à força contraria parecer do Ministério Público e da Defensoria Pública, que entraram com pedidos na Justiça contra a solicitação do prefeito. Na última terça (23), quando a prefeitura encaminhou o pedido à Justiça, Anderson Pomini, secretário de Negócios Jurídicos, afirmou que a utilização da força seria a "última alternativa" para casos graves de dependência.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Advogados consultados pela reportagem apontam que a medida de Doria não tem amparo legal.

Segundo Roberto Dias, professor de direito constitucional da Fundação Getulio Vargas, a internação compulsória é uma prisão disfarçada de tratamento clínico. "A pessoa só pode ser presa se cometer um crime. O usuário de drogas não é criminoso e está causando um mal só para si mesmo", diz.

Ainda de acordo com Dias, privar o usuário de liberdade em razão do vício poderia gerar outras implicações jurídicas no futuro. "A vítima teria todo o direito de entrar na Justiça com ações de reparação moral e financeira por conta de uma violação muita clara de seus direitos."

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

A saída, segundo o advogado, seria construir uma nova política articulada entre os órgãos responsáveis por autorizar o melhor tipo de tratamento para os viciados em drogas, como Ministério Público e a Justiça.

Duas das três clínicas indicadas à Justiça para receber os dependentes internados compulsoriamente nem oferecem o serviço de internação de usuários de drogas, segundo reportagem do jornal "O Estado de S. Paulo". Uma delas estaria fechada há pelo menos três meses.

Antes de a decisão judicial sair, Geraldo Alckmin (PSDB), parceiro de Doria na operação da cracolândia, afirmou que não mudaria a estratégia de convencimento dos usuários a entrar no tratamento por vontade própria. O programa estadual de reabilitação, Recomeço, só faz internações à força com mandados judiciais acordados também com a Promotoria.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

"O Recomeço tem quatro anos e meio, internamos 13 mil pessoas. Só 28 foram compulsórios, com ponto de vista psiquiatra, aval do Ministério Público e da Defensoria. Não há nenhuma possibilidade do Recomeço sair desse rumo, que é traçado cientificamente", disse David Uip, secretário de Saúde de Alckmin.

CÓDIGO DE ÉTICA

O Cremesp (Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo) já havia dito que o médico que realizasse o tipo de internação compulsória planejada por Doria poderia responder a procedimento no órgão.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Na noite desta sexta (26), o conselho reiterou sua posição em uma nota divulgada com orientações aos psiquiatras sobre internações compulsórias, que, segundo o órgão, deve ser fundamentada minuciosa e individualmente e submetida à decisão judicial. "É absolutamente necessário que se observe que o ato médico da consulta psiquiátrica deve preceder a todo procedimento de hospitalização forçada", afirma.

"O Código de Ética Médica contém as normas que devem ser seguidas pelos médicos no exercício de sua profissão. A legislação garante ao profissional autonomia suficiente que lhe permita recusar-se a realizar atos médicos que sejam contrários aos ditames de sua consciência e ao melhor interesse da saúde de seu paciente", destaca.

O conselho diz que isso fere dois artigos do Código de Ética Médica. Um diz que é proibido "deixar de obter consentimento do paciente ou de seu representante legal". Outro veta "deixar de garantir ao paciente o exercício do direito de decidir livremente sobre sua pessoa ou seu bem-estar, bem como exercer sua autoridade para limitá-lo".

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Para o psiquiatra da Escola Paulista de Medicina Dartiu Xavier, que trata dependentes químicos há 28 anos, a intenção da prefeitura é uma "loucura do ponto de vista médico, para não falar na afronta aos direitos humanos".

O médico diz que 75% dos usuários de crack não são viciados e, dentre os que são, só 1% está psicótico, sem noção da realidade. Apenas nesses casos é recomendada a internação compulsória.

Segundo Xavier, a forma mais eficaz de tratamento são modelos ambulatoriais como Centros de Atenção Psicossocial. "A dependência não é indicação de internação compulsória, que é uma ação médica excepcional, nunca uma política de saúde", afirmou.

Gostou da matéria? Compartilhe!

Compartilhar no Facebook Compartilhar no Twitter Compartilhar no WhatsApp Compartilhar no Email
Adicionar como fonte preferida no Google

Últimas em Geral

publicidade

Mais lidas no TNOnline

publicidade

Últimas do TNOnline

TNOnline TV