Repressão marca Egito sob governo Sisi
YAN BOECHAT
CAIRO, EGITO (FOLHAPRESS) - As flores vermelhas que enfeitam o grande canteiro central da praça Tahir, no centro do Cairo, são molhadas e aparadas cuidadosamente por uma equipe de jardineiros todos os dias. No entorno dela, soldados armados com fuzis e agentes de segurança à paisana mantém o trânsito fluindo bem nas caóticas e entupidas ruas da capital egípcia. No seu centro, uma imensa bandeira do Egito agora tremula constantemente com o vento que sopra do rio Nilo, a poucos metros de distância.
Símbolo máximo da onda de revoluções que derrubou ditadores no norte da África, hoje a praça pouco lembra os conturbados dias de janeiro e fevereiro de 2011. Não há um cartaz, uma foto, nada. Até mesmo os ambulantes que vendiam camisas e quinquilharias em alusão aos protestos desapareceram. Sob o risco de engordar as estatísticas que já contam com mais de 40 mil presos políticos, os egípcios foram obrigados a esquecer o que se passou na Tahir. Ou, pelo menos, mostrar que se lembram.
Foi ali que centenas de milhares de pessoas, em especial os jovens egípcios, conseguiram dar fim à ditadura de Hosni Mubarak e, acreditavam eles, iniciar, enfim, um período de democracia e liberdade no Egito.
"O 25 de janeiro -data do início da revolução e símbolo do movimento- foi apagado de nossa história", diz Ahmed Mahtab, jovem estudante de teologia que abandonou a vida religiosa em 2011 para se juntar aos protestos.
"Se você caminhar com uma camisa lembrando a revolução, como fazíamos antes, em menos de cinco minutos você será preso, eu lhe garanto", afirma, revelando ter sido detido ao menos cinco vezes desde o ano passado.
Desde que chegou ao poder em um golpe de Estado sangrento em 2013, o presidente do Egito e ex-chefe da segurança do Exército, Abdel Fattah al-Sisi, tem controlado o país de forma repressiva.
Além de colocar na cadeia praticamente todas as lideranças da Irmandade Muçulmana, o movimento político religioso que elegeu Mohammed Mursi como presidente após a queda de Mubarak, Sisi também atacou de forma brutal toda e qualquer oposição ao seu governo. Incluindo os jovens que lideraram o movimento revolucionário de 2011.
Boa parte dos líderes daqueles dias que eram vistos pelo Ocidente como representantes de uma geração que despertava para a democracia estão presos ou são monitorados de forma absolutamente rígida.
Ahmed Mahel, que após a queda do ditador passou boa parte dos anos de 2011 e 2012 dando palestras pela Europa e Estados Unidos e teve seu movimento cotado para ganhar o Nobel da Paz, está em prisão semiaberta. Todos os dias precisa chegar até as 18h em uma estação policial, onde dorme toda noite.
"As coisas estão muito, muito piores do que nos últimos anos do governo de Mubarak. Em 2011 haviam apenas entre 5.000 e 10 mil presos políticos, hoje já se fala em mais de 50 mil", diz Moustafa Fouad, diretor-executivo da ONG Centro Helipolies de Desenvolvimento Político e dos Direitos Humanos.
"Sisi se transformou em um ditador 'de facto', não há liberdade de expressão e todos que se opõem ao seu poder enfrentam ou a prisão ou a morte", diz ele. "O resultado da revolução foi desastroso para o Egito, tanto política como economicamente."
Desde o ano passado Sisi aprovou uma lei proibindo que ONGs como a de Fouad recebam recursos externos, impedindo que muitas delas permaneçam atuando.
O Egito enfrenta ainda uma grave crise econômica, que obrigou o governo à ceder às pressões do FMI (Fundo Monetário Internacional) para receber apoio financeiro e implementar uma série de medidas econômicas duras.
Desde o final do ano passado Sisi cortou os subsídios de eletricidade e combustível, implementou novos tributos e desvalorizou a libra egípcia. Em pouco menos de seis meses a moeda perdeu mais de 50% de seu valor e a inflação disparou para quase 30% no acumulado dos 12 meses. Com um deficit de 12% do PIB e uma dívida pública de 101% do Produto Interno Bruto, Sisi afirmou serem inevitáveis as medidas.
Os números macroeconômicos de fato começam a apresentar melhora, com o aumento da arrecadação e o sucesso na venda de títulos no mercado externo. Mas, para o egípcio comum, a situação está cada vez mais difícil.
"Meu salário caiu pela metade em menos de seis meses com a inflação e os novos impostos, com o que ganho mal consigo comer", conta a psicóloga Salma Boutros, uma típica representante da classe média egípcia que participou dos protestos de 2011.
"É muito triste parar e pensar que eu acho que foi tudo um grande erro. Nós erramos, não tínhamos nada a oferecer a não ser a força para gritar. Hoje eu sinceramente gostaria que a revolução não tivesse acontecido e que Mubarak ainda estivesse no poder", conta ela, sentada em um café a poucos metros da nova e colorida praça Tahir.
