Último comício de Marine Le Pen ganha reforço de eleitores jovens
RODRIGO VIZEU, ENVIADO ESPECIAL
ENNEMAIN, FRANÇA (FOLHAPRESS) - Hoje com 23 anos, o jovem desempregado Brian Lemaire tinha 8 quando as notas de euro entraram em circulação na França. Ainda assim, ele diz sentir falta do franco, a moeda francesa anterior.
"O franco era muito melhor para as pessoas", explica ele, enquanto espera Marine Le Pen chegar para o último comício de sua campanha à Presidência da França, nesta quinta-feira (4).
O local escolhido, Ennemain, é um diminuto vilarejo rural de apenas 230 habitantes, boa parte deles idosos, no norte da França. A paisagem foi rejuvenescida pelo afluxo de eleitores jovens da região interessados em ver a candidata ultranacionalista falar.
Le Pen é um sucesso entre os jovens franceses. A vantagem de Emmanuel Macron, de 61% contra 39% da adversária entre a população em geral, cai para 54% a 46% entre quem tem de 25 a 34 anos.
Boa parte da explicação está na falta de empregos. Enquanto a taxa de ocupação da população geral francesa é de 10%, ela supera 24% entre jovens de até 24 anos.
Com um emprego de lotérico em uma cidade a 15 km de Ennemain, Emerik Armand, 21, diz ter vários amigos que querem trabalhar, mas não conseguem.
Conta que queria ouvir sua candidata por ela ser a "única que tem um programa que pode funcionar".
Ele afirma apoiar a proposta de Le Pen de decretar uma moratória na entrada de imigrantes legais no país. "É só por um período, até que todos os franceses tenham tempo de arranjar trabalho."
Para ele, que é filiado à Frente Nacional, partido da candidata, a imigração só funcionava quando havia pleno emprego no país.
De olho em seu futuro, a FN tem investido no eleitorado jovem, inclusive em seus altos cargos internos.
O diretor da campanha dela, David Rachline, tem 29 anos. Deputada na Assembleia Nacional francesa, Marion Maréchal Le Pen, sobrinha de Marina, tem 27. O vice-presidente da FN, Florian Philippot, tem 35.
O partido também investe em uma organização para jovens, a Frente Nacional da Juventude.
David Berton, 25, foi formado politicamente pelo movimento. Atraído pelas ideias da FN aos 16, filiou-se em 2010 e, em 2012, recebeu um cargo na campanha presidencial de Le Pen daquele ano. Berton disse ter se interessado por política por meio do estudo de história e literatura no colégio.
"Eu considero a língua francesa uma das mais belas do mundo, porque ela tem um virtuosismo intelectual. Sou muito ligado à nossa civilização e à defesa dela. Na paisagem política atual, o único movimento que me parece que compartilha isso é a Frente Nacional", diz.
Berton chama atenção para outro fator que atrai os jovens para a sigla, além do desemprego: o temor de que acabem mais pobres dos que foram seus pais.
"Há 30, 40 anos, de geração em geração víamos um aumento do nível de vida da população. O pai sabia que o filho iria viver melhor, era uma lógica econômica. A minha geração vai ser a que vai viver pior."
Ele culpa pelas mazelas os políticos moderados de direita e esquerda que dominaram a cena francesa nas últimas décadas, junto a uma "política ultraliberal". "Hoje a juventude da França deseja mudança e ruptura."
