Votação que pode dar maiores poderes a Erdogan termina na Turquia
DIOGO BERCITO, ENVIADO ESPECIAL
ISTAMBUL, TURQUIA (FOLHAPRESS) - As urnas se fecharam às 17h locais na Turquia, às 11h em Brasília, encerrando o voto no referendo constitucional que pode transformar radicalmente o cenário político.
Eleitores disseram "sim" ou "não" às 18 emendas propostas pelo presidente Recep Tayyip Erdogan. A mais importante delas é transformar o sistema parlamentar em presidencial, abolindo o cargo de premiê. Erdogan teria ainda mais poderes, incluindo o de nomear juízes para a mais alta corte do país.
Erdogan está no poder desde 2003, quando era primeiro-ministro. Ele tomou posse como presidente em 2014. Se o referendo vencer, ele poderá se reeleger mais duas vezes -totalizando quase 30 anos de governo.
"Acredito que nosso povo vai abrir o caminho para um desenvolvimento muito mais rápido", Erdogan afirmou em Istambul, diante das urnas.
As pesquisas de intenção de voto mostravam uma disputa acirrada nos últimos dias. Uma sondagem prevê a vitória do "sim" por 51%.
O alto comparecimento nas regiões curdas, ao sudeste, onde o presidente é impopular, podem no entanto pesar a balança rumo ao "não". O resultado deve ser divulgado no fim do dia.
O voto será fundamental nas relações entre a Turquia, um importante membro da Otan (aliança militar ocidental), e a União Europeia.
Esses laços foram afetados nos últimos meses pela campanha do governo. Alemanha e Holanda proibiram comícios oficiais, no que a Turquia descreveu como "práticas nazistas". As relações de alto nível com Amsterdã foram rompidas.
Com a vitória do "sim", a Turquia estará ainda mais longe de sua adesão à União Europeia, uma candidatura já há tempos desacreditada.
DEMOCRACIA
"Esse referendo é uma piada", diz Anil Alçin, 46, que fez campanha pelo "não" na região asiática de Kadikoy, no Bósforo. "Erdogan já tem sua ditadura e já pode fazer o que quiser".
O presidente tem, segundo a oposição, feito demasiado. Depois de uma tentativa frustrada de golpe de Estado, o governo prendeu cerca de 45 mil pessoas e removeu 130 mil de suas funções públicas. Mais de cem jornalistas foram presos e veículos críticos foram encerrados.
"As pessoas vão decidir se querem que a Turquia seja governada democraticamente ou não", diz Levent Piskin, advogado do opositor Selahattin Demirtas, detido desde novembro. Demirtas é o co-líder do partido pró-curdo HDP, uma das principais forças críticas no país. A sigla foi desmontada nos últimos anos pela repressão.
"A pressão aos membros do HDP está diretamente relacionada a este referendo e seu conteúdo", afirma Piskin. "O governo é nacionalista, islâmico e conservador."
CURDOS
Os atritos dividiram a sociedade a respeito do futuro do país. A tensão foi especialmente marcada em Diyarbakir, no sudeste. Duas pessoas foram mortas em um tiroteio em uma escola onde a população depositava suas cédulas eleitorais. Não estava clara a relação entre esse incidente e o referendo.
A região sudeste concentra a população curda do país, com militantes exigindo sua independência. Há confronto armado entre o governo e milícias curdas, intensificados nos últimos anos -uma razão para que Erdogan venda o referendo como um voto na estabilidade do país, com mais poderes para lidar com ameaças.
"O Exército está dividido", diz Hamza Topçu, 23, partidário do "sim". Topçu, parte de um coletivo de jovens pró-governo, diz que a vitória no referendo permitiria o crescimento econômico e a independência do Judiciário -apesar de Erdogan poder nomear parte dos juízes.
Os partidários do governo discordaram da pergunta da reportagem sobre se isso não significaria demasiados poderes para uma só pessoa.
Para Ali Said Kose, 26, o termo de comparação são os governos europeus, dos quais a Turquia tem progressivamente se afastado, alinhando-se à Rússia e ao Irã. "Mas os governos europeus também não têm presidentes? Eles são anti-democráticos por isso?", pergunta.
