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Otan eleva gasto, e Brasil vê espaço para vender mais armas

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IGOR GIELOW

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Espremidos geopoliticamente entre os EUA de Donald Trump e a Rússia de Vladimir Putin, os membros europeus da Otan começaram a aumentar seu gasto militar. De olho no movimento, o Brasil espera lucrar com a mudança de posicionamento.

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A Organização do Tratado do Atlântico Norte, fundada há 68 anos para formar um bloco militar que protegesse o Ocidente da ameaça da União Soviética, vive uma crise de identidade sob pressão.

De um lado, Trump a acusa de obsolescência e cobra dos 26 europeus da aliança maior envolvimento. Washington responde por 72% dos US$ 918 bilhões (R$ 2,9 trilhões) que os países da Otan gastaram em 2016.

A leste, o que assusta os europeus é a desinibição de Putin, que guerreou com a Geórgia em 2008 e anexou a Crimeia em 2014, ambas ações visando limitar a expansão ocidental sobre antigas repúblicas soviéticas.

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"A Europa é um campo para negócios, sabemos que estão se rearmando", afirma o ministro da Defesa brasileiro, Raul Jungmann. O Itamaraty estimula, como outros países produtores de armas, a promoção das vendas.

Hoje, o Brasil é um dos maiores fornecedores de munição de armas leves para membros da Otan. Detentora de virtual monopólio no setor, a CBC (Companhia Brasileira de Cartuchos) já registrou um aumento em suas encomendas na Europa.

"Os estoque estratégicos estão sendo reconstruídos", diz o vice-presidente de exportações da empresa, Fernando Salm. A cifra exata é sigilosa, mas cerca de 85% da produção da CBC é vendida no exterior, e disso 30% fica na Europa, onde a empresa tem fábricas na Alemanha e na República Tcheca.

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TURQUIA

"É um reflexo da mudança geopolítica. Há outros fatores, como o aumento de compras pela polícia da Turquia", afirma Salesio Nuhs, vice-presidente de Vendas da Taurus, a maior fabricante de armas leves da América Latina e que pertence à CBC.

A Taurus, após a crise que levou à sua venda em 2014, elevou a exportação em 27%, para 710 mil armas em 2016 --a maioria visando mercado doméstico americano, onde é a quarta colocada. Ela ainda luta para sair do vermelho, tendo registrado prejuízo de R$ 250 milhões em 2015.

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A Embraer, por sua vez, mira a Europa com seu cargueiro KC-390. O avião tem como co-produtores Portugal e República Tcheca, que os brasileiros esperam virar clientes para colocar o pé no disputado mercado de substituição dos cargueiros Hércules.

Durante a LAAD, feira de defesa ocorrida há duas semanas no Rio, a Folha falou com outros dois produtores europeus de sistemas de defesa. Pedindo reserva sobre sua identidade, confirmaram que Alemanha, França e Reino Unido estão executando opções de compra que vêm associadas a contratos -mecanismo que não vinha sendo usado nos últimos anos.

O movimento vai contra a retórica oficial desses países, donos dos maiores orçamentos militares depois dos EUA na Otan. Sobre a cobrança de Trump, o ministro alemão do setor, Sigmar Gabriel, disse que seria impossível atingir a meta da Otan de gastar 2% do PIB em defesa.

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A Alemanha tem a maior economia na Otan depois dos EUA, mas gasta 1,2% de seu PIB, enquanto os americanos comprometem 3,6%. Obviamente, é incomparável o nível e a intenção de engajamento militar dos dois países.

Países que fizeram parte da União Soviética e estão na Otan, como os Estados Bálticos, e antigos membros do bloco soviético como a Polônia não disfarçam o temor por estarem na linha de frente do embate com o Kremlin.

A Lituânia anunciou dia 12 que conseguirá chegar aos 2% de gastos não em 2024, como acertado na cúpula da Otan, mas no ano que vem.

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Puxados pelo Leste, os europeus da Otan já haviam registrado o fim da queda nos gastos militares desde 2009, com o impacto da crise global. Em 2016, a média ficou um pouco alta, 1,46% do PIB.

A inconstância da Presidência de Trump, que voltou uma casa atrás em seu discurso isolacionista ao atacar alvos do governo sírio dia 7, não deve desestimular o movimento. "A maior ameaça é a Rússia", disse à Folha o ministro da Defesa lituano, Raimundas Karoblis.

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