É preciso repensar cidades da Síria, diz arquiteta após 6 anos de guerra
DANIEL AVELAR
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Assoladas por seis anos de guerra civil, as cidades da Síria encontram-se em grande parte devastadas.
A arquiteta Marwa al-Sabouni, que vive em Homs, no oeste do país, tomou para si a missão de imaginar como essas cidades podem ser reconstruídas após o término do conflito. "Antes de construir prédios, nós precisamos reconstruir comunidades", disse Sabouni, 35.
Ela conta as dificuldades que enfrentou nos períodos mais dramáticos do conflito em sua cidade. Entre o risco de bombardeios, sequestros e as crises frequentes no abastecimento de água, luz e gás, a arquiteta passou quase dois anos evitando sair de seu apartamento, a poucos quarteirões da linha de batalha. "Não havia lugares seguros em Homs", diz.
No livro "The Battle for Home" ("A Batalha pelo Lar", sem edição em português) e em uma palestra no TED, Sabouni aborda os problemas de planejamento urbano que, em sua visão, contribuíram para a eclosão da guerra civil.
Para ela, muitos elementos das antigas cidades islâmicas que promoviam integração e acolhimento foram gradualmente modificados a partir da chegada dos colonos franceses, nos anos 1920. Os diferentes grupos étnicos e religiosos, que antes compartilhavam uma vida cultural nos espaços públicos da cidade, passaram a ser segregados.
A alienação provocada pela vida em guetos, diz a arquiteta, contribuiu para o ambiente de polarização no qual se deu o início da guerra, em 2011.
Sabouni afirma que o conflito é resultado de uma "crise de identidade" que se reflete no ambiente das cidades. As favelas, que abrigavam cerca de 40% da população antes do conflito, foram as primeiras partes do país a serem devastadas. "É mais fácil destruir algo que é feio", diz.
Além disso, parte do patrimônio histórico milenar das cidades sírias, que, segundo a arquiteta, "faz parte da identidade das pessoas", foi depredada e abandonada antes mesmo do início da guerra, e agora se encontra em ruínas.
"Deve haver um senso de pertencimento e compartilhamento para que comunidades possam coexistir em paz. Isso foi afetado pelo vandalismo e pelos erros urbanísticos anteriores à guerra", diz.
RECONSTRUÇÃO
Sabouni diz que o processo de reconstrução das cidades sírias no pós-conflito deve buscar evitar os erros de planejamento do passado.
As áreas periféricas, mais devastadas pela guerra, estarão na mira de investidores. Para a arquiteta, antes de gerar lucros, a prioridade deve ser construir um ambiente acolhedor do qual as pessoas possam se orgulhar.
Já nos centros históricos, o caminho seria incorporar a tradição das "camadas de civilização" que viveram ali no passado, recuperando o espírito harmonioso das antigas cidades islâmicas.
O provável ressentimento entre setores da população síria após o término da guerra impõe desafios extras para a arquitetura, pois espaços em comum podem tornar-se terreno de disputas sectárias, em vez de promover integração.
"Meu objetivo não é pôr todo mundo junto no mesmo lugar como se fosse uma grande festa", diz Sabouni. "Nosso papel é buscar um equilíbrio entre limites e proximidades. Isso não é tarefa fácil."
