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Romance francês anti-imigração de 1973 inspirou estrategista de Trump

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DIOGO BERCITO

ROMA, ITÁLIA (FOLHAPRESS) - Há algo de literário no veto à entrada de cidadãos muçulmanos aos EUA e na crescente aversão a imigrantes.

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Literatura racista, em especial: o livro "O Campo dos Santos", publicado em 1973 pelo francês Jean Raspail e lançado em português no Brasil pela editora Ediouro.

Stephen Bannon, estrategista-chefe do presidente americano Donald Trump, citou essa obra repetidas vezes ao referir-se à crise migratória na Europa. Ele disse que a chegada da multidão de refugiados vindos de países em guerra ou extrema pobreza -como Síria, Iraque e Sudão- era uma "invasão", como a do livro.

"Quer dizer, isso é como 'O Campo dos Santos', não é?", afirmou o assessor radical de Trump em abril de 2016, segundo o "Huffington Post".

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O "campo dos santos" do título é uma referência a um trecho da Bíblia, contaminando a narrativa anti-imigração com um viés religioso, como aquele que na ideologia de Bannon opõe cristãos a muçulmanos.

Bannon é considerado um dos principais responsáveis pela decisão de Trump de vetar a entrada de cidadãos de países islâmicos.

Nos versículos bíblicos, Satanás seduz tribos inimigas de Deus. Elas "subiram à superfície da terra e cercaram o acampamento dos santos" (Apocalipse 20:9).

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ESCATOLOGIA

A obra de Raspail, descrita por críticos desde sua publicação como uma ficção racista, é hoje uma das queridinhas da extrema direita. A tal "invasão" citada por Bannon, liderada por um guru que se alimenta de fezes, começa com a viagem de 800 mil indianos à França.

Sua chegada é vista por outros cidadãos do Terceiro Mundo como um sinal para que se rebelem também.

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Europeus, incluindo um papa liberal latino-americano, relutam em impedir a migração -um fato relembrado em 2015 por Julia Hahn, assessora de Bannon, quando o papa Francisco pediu que os EUA recebessem levas de refugiados.

A hesitação leva a "civilização ocidental" a ser esmagada pelos pés dos imigrantes. A capa de uma tradução ao inglês diz que a obra trata do "fim do mundo branco".

O "Huffington Post" resume dois dos momentos dramáticos do enredo: chineses invadem a Rússia e a rainha do Reino Unido é forçada a casar seu filho com uma mulher paquistanesa, o que parece ser problemático na obra.

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Os imigrantes, no barco, são descritos em uma orgia repleta por "rios de sêmen".

FRANÇA

"O Campo dos Santos" foi citado, nos últimos anos, por diversos representantes da extrema direita -ou "alt-right", como eles próprios têm recentemente se descrito.

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John Tanton, fundador de uma série de grupos contrários à imigração aos EUA, disse em entrevista ao jornal "Washington Post" em 2006 que se dedicou à questão depois de ler esse livro.

Tanton afirmou que o texto de Raspail, ao incluir "sentimentos diferentes" em relação à imigração, poderia ajudar nas políticas públicas. Ele foi o responsável pela republicação de "O Campo dos Santos" em 1995 e 2001.

A francesa Marine Le Pen, do partido de extrema direita Frente Nacional, também leu a obra, que inclusive recomendou. Sua candidatura, com chances de chegar à Presidência, é marcada por uma aversão a migrantes.

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"Vocês têm de estar loucos. Loucos ou desesperados", diz um personagem no livro. "Vocês precisam estar fora de si para apenas sentar-se e deixar que tudo isso aconteça, aos poucos. Tudo devido a sua pena. Sua insípida, insuportável pena."

"Vocês querem destruir o nosso mundo, nosso modo de vida. Nenhum de vocês tem orgulho de sua pele e de tudo aquilo que representa."

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