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Racismo e crise econômica ibérica regem filmes do Festival de Berlim

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GUILHERME GENESTRETI, ENVIADO ESPECIAL

BERLIM, ALEMANHA (FOLHAPRESS) - Num ano em que a questão racial deve dar a tônica da cerimônia do Oscar, o filme "Eu Não Sou Seu Negro", indicado na categoria de documentário, serve de contrapeso à visão condescendente de "Estrelas Além do Tempo", concorrente a melhor longa de ficção.

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"Eu Não Sou Seu Negro", que estreia nesta quinta (16) no Brasil, integra também a programação do Festival de Berlim, onde foi recebido sob aplausos.

Enquanto "Estrelas" opta por um tom conciliatório para tratar da segregação racial nos anos 1960, o documentário do haitiano Raoul Peck recupera os textos ora inflamados ora confessionais do autor James Baldwin (1924-1987), testemunha da luta pelos direitos civis naquela década.

Baldwin foi próximo das três figuras proeminentes do movimento: Martin Luther King, Malcolm X e Medgar Evers -todos, como aponta Baldwin, "assassinados antes dos 40 anos".

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Sob narração de Samuel L. Jackson, o autor expõe suas opiniões sobre as convulsões da época, uma visão independente que não se filiava nem ao pacifismo de King, e suas pregações de resistência não-violenta, nem ao belicismo dos Panteras Negras, que "odiavam todos os brancos".

Peck dispensa as tradicionais "talking heads", as entrevistas filmadas com diversas pessoas; filme todo é calcado nas palavras de Baldwin, que rememoram as lutas do período e as várias manifestações do racismo no cinema, na televisão e na representação sexual dos negros.

A contextualização se dá pelas imagens de arquivo, que rememoram eventos históricos, como a decisão que permitiu à colegial negra Dorothy Count estudar numa escola para brancos na Carolina do Norte, e que atualizam o tema, como a brutalidade policial que culminaria nos recentes protestos do Black Lives Matter (vidas negras importam).

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Peck (de "Abril Sangrento") também tem um segundo filme nesta edição do Festival de Berlim: a ficção biográfica "Le Jeune Karl Marx", também fora da competição principal.

Embora a obra tenha sido aplaudida com entusiasmo, a crítica torceu o nariz para a forma como retratou a juventude de Marx (August Diehl) e a elaboração do seu "Manifesto Comunista": "superficial, transforma seu protagonista num santo", escreveu a "Variety".

'PRECISANDO DE COLO'

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Já na seção competitiva, o longa "Colo", da portuguesa Teresa Villaverde, aborda os efeitos da crise econômica no país ibérico sob o ponto de vista de uma família de classe média: desempregado, o pai vaga pelas ruas em estado de semiletargia; a mãe se dobra para trabalhar em múltiplos empregos; e a filha não tem dinheiro para o ônibus.

Na capital alemã, a cineasta lisboeta criticou a atitude da Alemanha e da França na forma como conduzem a União Europeia.

"O bloco foi criado como forma de solidariedade entre os países e isso está a perder-se", disse na coletiva de imprensa. "Temos agora uma Europa centralizada que impõe suas decisões sobre a Europa do sul."

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O silêncio entre os personagens e os movimentos de câmera que tendem a se afastar deles incrementam a sensação de desolação do longa. "O que os personagens têm mais a dizer é no fundo o que não dizem", diz a diretora.

Ela afirma que escolheu "Colo" como título por causa das muitas acepções do termo em português, "como embalar um bebê ou dar colo a alguém". "Todos estamos num tempo confuso e precisamos de algo que não sei se sabemos exatamente o que é.

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