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Postura agressiva de Trump prenuncia guerra fria com a China

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MARCELO NINIO

WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) - A cúpula comunista em Pequim ainda tenta decifrar o significado da chegada de Donald Trump à Casa Branca. Em três semanas no cargo, Trump redefiniu a dinâmica do chamado G-2, montando o prelúdio de uma guerra fria entre as duas maiores economias do mundo.

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O republicano já havia provocado tensões com a China antes mesmo de tomar posse e, com seu estilo "elefante em loja de cristais", chocou a elite política chinesa, pouco habituada a ser confrontada.

Trump começou com o pé na porta: ao ser eleito, falou por telefone com a presidente de Taiwan, Tsai Ing-wen, tocando de cara no principal nervo da China. Nesta sexta-feira (10), Trump amenizou o tom e prometeu, em telefonema com o presidente Xi Jinping, honrar a política de "China única".

China e Taiwan se separaram depois que os comunistas liderados por Mao Tsé-Tung venceram a guerra civil em 1949 contra os nacionalistas, que foram forçados a se estabelecer em Taiwan. Para Pequim, Taiwan é um território rebelde que em algum momento será reunificado ao continente, à força se necessário.

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Começar tocando nesse vespeiro faria parte da estratégia de negociação que Trump leva do ramo imobiliário para a Casa Branca, especulam analistas. Blefe ou não, além de botar Taiwan na mês, Trump ameaçou sobretaxar em 45% as importações da China e assinou decreto para expandir as Forças Armadas, com ênfase na Marinha, endurecendo o jogo logo de saída.

"Quem quer ampliar a Marinha não está pensando na guerra ao terror no Oriente Médio", disse à Folha um diplomata pedindo para não ser identificado, em referência ao disputado mar do Sul da China, onde Pequim aumentou sua presença militar, incluindo com a construção de ilhas artificiais.

A retórica de Trump ganhou corpo com os nomes que indicou para o seu governo, muitos com forte tendência anti-China, como o secretário de Comércio, Wilbur Ross, o representante de comércio, Robert Lightizer, e principalmente o economista Peter Navarro, chefiar o Conselho Nacional de Comércio.

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Apontado como o economista mais poderoso do governo Trump, Navarro é autor de três livros dedicados a advertir com tintas sombrias para as ameaças da ascensão política e econômica da China. Sua nomeação reforçou a impressão em Pequim de que a relação do G-2 sob Trump será marcada pelo confronto. Para David Shambaugh, um dos principais especialistas em China dos EUA, é prenúncio de instabilidade na região.

"Claro que isso produzirá reação e retaliação da China. Também porá numa posição muito difícil aliados e parceiros dos EUA, que querem estabilidade nas relações estratégicas EUA-China e não desejam ser forçados a uma falsa escolha", disse à Folha.

Uma possível elevação de 45% nas importações provavelmente levaria Pequim a dar o troco, numa briga sem vencedores. Segundo um estudo do Instituto Peterson de Economia Internacional, uma guerra comercial reduziria mergulharia os EUA numa recessão em 2019 e cortaria pela metade o crescimento do PIB chinês.

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Alvo preferencial da retórica protecionista de Trump em sua campanha, a China ironicamente foi o país que mais ganhou na mudança no poder americano.

Quatro dias depois de assumir a Presidência, Trump retirou por decreto os EUA da Parceria Transpacífico, o mega-acordo comercial negociado pelo governo de Barack Obama tendo em mente deter a influência da China. Foi um alívio para a cúpula chinesa, que fica mais à vontade para desenvolver seus próprios projetos de integração asiática, em posição para ditar as normas.

No dia da posse de Trump, o site oficial do Exército chinês comentava que a possibilidade de uma guerra havia ficado "mais real". O novo governo americano também tende a achar que um confronto militar é questão de tempo. Foi o que disse em março de 2016 Stephen Bannon, guru do site da extrema direita Breitbart News e atual estrategista-chefe da Casa Branca.

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"Vamos à guerra no mar do Sul da China em cinco ou dez anos. Não há dúvida sobre isso", disse, em referência à expansão militar da China nas suas cercanias, por onde passa grande parte do comércio mundial.

Para Robert Daly, diretor de China do Wilson Center, o regime de Pequim manterá a cautela porque precisa de "um ambiente estável e previsível para continuar sua difícil transição econômica" e chegar sem turbulências ao congresso do partido, no fim do ano, que consolidará ainda mais a liderança personalista do presidente Xi Jinping.

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