Peça inacabada de García Lorca ganha final após 80 anos da morte do poeta
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Oito décadas após a morte de Federico García Lorca, no início da Guerra Civil Espanhola, uma peça inacabada do poeta e dramaturgo ganhou final e título.
"Comedia Sin Título" (comedia sem título), como a obra era chamada até então, tinha pronta apenas uma das três partes previstas pelo autor.
Os outros dois atos, apenas esboçados, foram concluídos neste ano pelo também poeta e roteirista espanhol Alberto Conejero, que intitulou a peça como "El Sueño de la Vida" (o sonho da vida).
O projeto, financiado pelo Departamento da Cultura de Madrid, será publicado no próximo ano e deve ser encenado em 2018.
A trama se passa em um teatro no qual a peça de Shakespeare "Sonho de uma Noite de Verão" está em cartaz e mostra uma revolução das ruas que adentra o auditório. "É uma peça sobre o papel do teatro quando confrontado com uma emergência social, mas também é sobre a necessidade da ficção e da poesia em um mundo em ruínas", disse Conejero ao jornal britânico "The Guardian".
Conejero já havia trabalhado em uma adaptação de "Amor de Dom Perlimplim com Belisa em Seu Jardim", de Lorca.
"Embora a pergunta que espero de todos e a que eu próprio me perguntei ao longo do processo seja 'como você se atreve?'", reconhece Conejero ao jornal espanhol "El País", "devo dizer que foi um exercício de amor da minha parte a Lorca". "Mas é também necessário para a validade do que ele propôs. Ele estava preocupado com a desigualdade social, a ascensão do fascismo. São questões que estão novamente em alta na Europa e que nos levam a abordagens semelhantes ", diz.
O escritor prefere não chamar seu trabalho como uma conclusão –ele argumenta que a obra final é mais do que fruto de sua imaginação. "Não acho que 'terminando' seja a palavra mais adequada. Trata-se de um diálogo com a voz de Federico e seguir em frente com esse impulso. Criei uma nova peça, mas em seu cerne está a peça sem título. Não mexi uma vírgula do ato dele", disse Conejero ao "Guardian".
Ele reconhece que apesar de ter estudado e tentado se manter fiel aos planos de Lorca, houve um debate sobre o destino de obras inacabadas como a em questão. "A pior coisa é considerar Lorca de alguma maneira intocável. Seu trabalho está mais vivo do que nunca e está pedindo por corpos, vozes e novos horizontes", diz.
