Nova guarda do samba paulistano
VICTORIA AZEVEDO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Quem não gosta de samba, bom sujeito não é / É ruim da cabeça ou doente do pé", cantarola o músico Germano Mathias, 82. Veterano do gênero musical, o artista paulistano se apoia nos versos de Dorival Caymmi para afirmar que o samba sempre terá um público fiel e que ele "não vai morrer".
Para Osvaldinho da Cuíca, outro nome da velha guarda, o samba hoje é representado pelo que é feito nas comunidades e nos "botequins". "Sobrevive o tradicional, que é brasileiro, com o coração africano e as influências árabes."
Por outro lado, o som que vem agitando a cena contemporânea de São Paulo chama atenção justamente por não seguir à risca as tradições tão louvadas por Mathias.
"O samba não morre quando se mexe com ele, quando você lida como algo vivo", diz o músico Romulo Fróes.
"O que esses caras estão fazendo não tem comparativo, é uma coisa nova", diz o jornalista e escritor Lucas Nobile, referindo-se a nomes atuantes do cenário da capital paulista, como os músicos Douglas Germano e Rodrigo Campos.
"Eles respeitam toda a bagagem da música brasileira, mas fazem um som com a personalidade deles, dialogando diretamente com o nosso cotidiano", continua Nobile, autor do livro "Dona Ivone Lara: a Primeira-Dama do Samba" (ed. Sonora).
Rodrigo Campos, Juliana Amaral e Flora Poppovic (esta última do grupo Pitanga em Pé de Amora) se reuniram com a TV Folha para falar sobre samba e cantar.
"Além da capacidade de se reinventar, o samba nutre outras vertentes da música brasileira", diz Campos.
Ele acrescenta que o gênero tem particularidades em sua versão paulistana, que "já nasceu de uma reinterpretação". "Pegou o que estava sendo feito no Rio e releu de uma outra maneira."
Para os três músicos, esse diferencial do "sotaque" também se dá por uma qualidade poética e cronista que o paulistano carrega consigo.
"O samba é um fenômeno evidentemente urbano. E a relação que a gente tem com a nossa cidade é diferente da que os cariocas têm com a deles. Adoniran Barbosa, por exemplo, falou da mulher atropelada no semáforo, e não das belezas do morro", afirma a cantora Juliana Amaral.
O interesse pelo gênero extrapola a cena musical. A Ocupação Cartola, exposição no Itaú Cultural que homenageou o sambista carioca, reuniu 63 mil pessoas de 17 de setembro a 15 de novembro.
