Líder uruguaio defende que Caracas não seja suspensa do Mercosul
ISABEL FLECK
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Em rápida passagem por São Paulo, o presidente uruguaio, Tabaré Vázquez, defendeu nesta segunda (21) que a Venezuela, caso não cumpra até 1º de dezembro todos os compromissos assumidos com o Mercosul, perca seu direito a voto, mas não seja suspensa do bloco.
A posição destoa da dos outros três países fundadores -Brasil, Argentina e Paraguai-, que consideram a suspensão de Caracas do Mercosul.
"Se a Venezuela não internalizar os acordos, ela simplesmente perde seu voto no Mercosul, e participará do mesmo com sua voz, mas sem voto", disse Vázquez em São Paulo, durante evento do Lide (Grupo de Líderes Empresariais), do prefeito eleito João Doria (PSDB).
Questionado sobre a posição diferente dos outros três membros, o presidente uruguaio afirmou que a perda do direito a voto foi a pena acordada em setembro pelos quatro países fundadores. Ele, contudo, disse que os quatro países terão que "conversar" sobre isso se realmente a Venezuela não cumprir os acordos. À reportagem, o chanceler uruguaio, Rodolfo Nin Novoa, disse que as regras do Mercosul só permitem que um membro seja suspenso se os demais determinarem que ele feriu a cláusula democrática do bloco -o que ocorreu com o Paraguai após a queda de Fernando Lugo em 2012.
A Argentina sustenta que há graves violações de direitos humanos na Venezuela, o que justificaria o acionamento da cláusula democrática.
Nin Novoa diz que a questão das violações está sendo discutida pela OEA (Organização dos Estados Americanos) e que "por agora" o Mercosul não é capaz de fazer essa avaliação.
"Está se discutindo [isso na OEA]. A própria Venezuela entrou numa fase de diálogo entre governo e oposição, com o Vaticano e os ex-presidentes [de Espanha, Panamá e República Dominicana], e que precisamos deixar que se desenvolva", disse o chanceler uruguaio. "Quando ele terminar, aí analisaremos a situação."
Em setembro, os quatro países-fundadores do Mercosul decidiram deixar a Venezuela de lado e criar uma presidência colegiada do bloco até 1º de dezembro. O prazo é também para que Caracas incorpore à sua legislação interna todas as regras impostas aos membros do bloco.
Faltando dez dias para o 'deadline' e em meio a uma grave crise política e econômica no país, é pouco provável que o presidente Nicolás Maduro consiga cumprir todas as regras.
Na época, Argentina, Brasil e Paraguai votaram a favor de uma presidência colegiada, mas o Uruguai preferiu se abster -o que, no entanto, garantia o consenso exigido para decisões deste tipo no bloco.
A Venezuela diz ter a presidência rotativa do Mercosul. Pela alternância em ordem alfabética, Caracas deveria ter assumido, após o fim do mandato do Uruguai, em 1º de agosto – mas houve oposição de Argentina, Brasil e Paraguai.
O impasse só foi resolvido mais de um mês depois, com a presidência colegiada -que, por sua vez, o governo Maduro não aceitou.
