Peça que foi interrompida pela PM, 'Blitz' tem apoio do governo do Estado
MARIA LUÍSA BARSANELLI
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Blitz - O Império que Nunca Dorme", peça cuja apresentação numa praça de Santos (litoral paulista) foi interrompida por policiais militares no domingo (30), tem apoio do governo estadual, que também administra a PM.
A montagem da Trupe Olho da Rua ganhou dois editais do ProAC (Programa de Ação Cultural), da Secretaria de Estado da Cultura. Em 2014, recebeu R$ 80 mil para produzir a peça. Agora terá R$ 100 mil para circulação. Na documentação, é descrito o conteúdo do trabalho.
O espetáculo -que satiriza o poder do Estado e da mídia e traz atores vestindo fardas, saias e máscaras de animais- já havia sido encenado na mesma praça dos Andradas, no centro histórico da cidade, "umas 20 vezes", diz Raquel Rollo, atriz e produtora da peça. "Algumas com a presença da PM, mas nunca tinha acontecido nada."
No último domingo (30), algumas viaturas rodearam a apresentação, com cerca de 50 espectadores, e interromperam a peça, que trazia uma bandeira do Brasil hasteada de cabeça para baixo e tocava o hino nacional.
Também deram ordem de prisão ao ator e diretor Caio Martinez Pacheco. De acordo com Rollo, quando o encenador questionou o motivo da detenção, um policial lhe respondeu: "Ainda não sei".
O tumulto foi gravado por pessoas da plateia e repercutiu na internet. Em um deles, vê-se o momento em que um policial pega o celular de um espectador e diz que irá "apreender" o aparelho.
Pacheco foi levado à delegacia e liberado no fim da noite. Segundo o grupo, foram apreendidas duas bandeiras (do Brasil e de São Paulo) e cinco cartazes da peça, além do celular de um espectador que filmava. Para a sessão de "Blitz" nesta sexta (4), em Suzano (SP), a trupe diz que terá de providenciar novo material.
A produtora ainda afirma que ela e uma colega foram agredidas pela polícia com cassetetes e que acionarão o Ministério Público e a Comissão de Direitos Humanos.
Fundada em 2002, a companhia santista sempre fez peças de rua, muitas delas críticas, como "Terra Papagalli", sátira à política do país.
OUTRO LADO
Em nota, a Secretaria da Cultura diz que não há "restrições quanto aos temas" de projetos do ProAC. O governo do Estado e a Secretaria da Segurança Pública afirmam que a PM de Santos abriu sindicância administrativa para apurar o ocorrido, mas que o grupo infringira "a legislação federal por desrespeito às bandeiras nacional e paulista" e que, na delegacia, não foi feita denúncia de agressão.
