Brasileiro é dos que foram à Justiça para transferir 'brexit' ao Parlamento
DIOGO BERCITO
MADRI, ESPANHA (FOLHAPRESS) - Um dos cidadãos que levaram o governo britânico à Justiça para transferir o "brexit" ao Parlamento é um cabeleireiro brasileiro residente em Londres.
Deir dos Santos é representado pelo advogado Dominic Chambers, que confirmou a informação à reportagem. Santos, no entanto, não respondeu aos pedidos por uma entrevista.
Segundo o advogado, ele prefere não expor-se pra evitar eventuais abusos. A ação levou a Justiça a decidir nesta quinta-feira (3) que cabe ao Parlamento, e não ao governo, dar início ao divórcio entre Reino Unido e União Europeia.
Santos seria, assim, um dos responsáveis por atrasar ou mesmo inviabilizar a saída britânica.
Segundo a reportagem apurou, Santos tinha em 2014 uma empresa no Brasil chamada Alhomatic. Os registros não especificam o ramo de atividade. Não está claro quando ele emigrou ao Reino Unido nem como obteve a cidadania britânica.
Tampouco há informações sobre por que ele decidiu ir à Justiça. Há outros grupos pedindo que o Parlamento decida o "brexit", como o Desafio do Povo.
A reportagem conversou recentemente com Grahame Pigney, líder do Desafio do Povo. Ele afirmou que o Parlamento decidiu a entrada do Reino Unido na União Europeia, e portanto cabe aos legisladores anular a própria decisão.
A saída significaria, afinal, a perda de direitos a milhões de cidadãos.
A sentença desta quinta-feira não é definitiva. O governo já afirmou que vai apelar à Suprema Corte. Há audiências previstas para o início de dezembro.
Mas a sentença é uma séria derrota para Theresa May, premiê britânica, e pode atrasar seus planos de separar o Reino Unido da União Europeia. O divórcio foi votado em 23 de junho.
May havia anunciado que iria acionar o Artigo 50 do Tratado de Lisboa até o final de março de 2017, dando início formal à saída, um processo de dois anos de duração. Mas essa ação pode caber, agora ao Parlamento.
Isso significa que os legisladores poderão decidir o "brexit", o que leva a uma situação por ora imprevisível. Mesmo que contrários à saída, não se sabe se eles de fato desafiariam resultado do referendo de junho e cancelariam a ruptura com o bloco europeu.
Jeremy Corbyn, líder trabalhista, afirmou que diante desse julgamento o governo deve sem demora informar o Parlamento sobre seus planos de negociação.
"O Partido Trabalhista respeita a decisão do povo britânico de deixar a União Europeia. Mas deve haver transparência", ele disse em uma nota.
Nigel Farage, ex-líder do Ukip (Partido da Independência do Reino Unido) e um dos principais entusiastas da saída britânica, afirmou por sua vez temer que os eleitores sejam "traídos".
Farage disse à uma rádio local que "nós podemos estar no início de um processo em que há uma tentativa deliberada por parte de nossa classe política de trair 17 milhões de eleitores."
