Empresário no centro da 'Lava Jato' espanhola vai fazer delação premiada
DIOGO BERCITO
MADRI, ESPANHA (FOLHAPRESS) - Calado por oito anos, sem declarações à imprensa, o empresário Francisco Correa afirmou na sexta-feira (30) que irá colaborar com a Justiça espanhola no julgamento do chamado caso Gürtel.
A surpresa pode prejudicar o PP (Partido Popular), cujo envolvimento em tramas de corrupção tem recentemente carcomido sua popularidade.
O caso Gürtel é um dos maiores escândalos de corrupção da história moderna da Espanha. Correa é um de seus personagens principais, e a ação foi batizada com seu nome -"Gürtel" é o alemão para o espanhol "Correa".
As acusações envolvem o financiamento ilegal da sigla. Membros do Partido Popular são, ademais, suspeitos de ter cobrado comissões da rede em troca de contratos públicos, em um cenário semelhante ao investigado pela Operação Lava Jato.
O julgamento começa na próxima terça-feira (4) e deve se alongar durante meses. As investigações foram iniciadas em novembro de 2007.
Correa, apontado como chefe da rede de corrupção investigada no caso Gürtel, irá "contar tudo o que sabe", segundo o jornal "El País", sem importar-se com quem possa envolver no caso. "Nenhum político fez nada por mim durante esses anos", Correa afirmou ao diário.
Seu "tudo" pode ser bastante daninho, vindo de um empresário com relações estreitas com membros do PP.
Dos quase 40 suspeitos no caso Gürtel, três foram tesoureiros do PP, e um foi ministro da Saúde. Todos negam participação na trama.
Correa ofereceu à Justiça que tome 2,2 milhões de euros de suas contas na Suíça e restitua às vítimas do esquema de corrupção, incluindo a prefeitura de Madri. As contas estão, porém, impedidas pelas autoridades suíças. Correa tem, segundo a mídia local, cerca de 20 milhões de euros bloqueados no país.
A promotoria pede que ele seja condenado a 110 anos de prisão. Ele será réu em diversos outros julgamentos, durante os próximos anos.
Pelas regras, a colaboração com a Justiça em casos de corrupção pode reduzir a sua pena em até dois terços.
A entrega do dinheiro na Suíça também pode reduzir a pena. A devolução precisa ocorrer antes do depoimento.
Segundo o "El País", Correa decidiu colaborar com a Justiça após a morte de sua mãe. Ele é o tutor de seu irmão, deficiente. "Quero que tudo isso termine o quanto antes [...] para ir com meu irmão ao exterior e começar uma nova vida", ele afirmou.
IMPASSE POLÍTICO
O caso Gürtel está relacionado a outro escândalo de corrupção espanhol, conhecido como caso Bárcenas, sobrenome de um ex-tesoureiro do PP. O caso Bárcenas diz respeito à caixa dois do partido, e também causou grave dano à sua imagem.
A notícia da colaboração de Correa e do início do julgamento do caso Gürtel, na semana que vem, foi porém eclipsada por uma série de outras crises na Espanha, razão pela qual pode ter impacto limitado na sociedade.
Espanhóis foram às urnas em dezembro e em junho, mas nenhum partido conseguiu o número necessário de deputados nem foi capaz de entrar em acordo. O país tem hoje um governo em exercício e não pode, por exemplo, aprovar o orçamento de 2017.
Se não houver um pacto em breve, o país terá que realizar as terceiras eleições no período de um ano, em dezembro, com um alto custo político a todas as siglas.
Ademais, o PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol), uma das principais forças políticas da Espanha, está enfrentando nesta semana sua mais séria crise interna da história recente.
Mais de metade de sua direção renunciou, na tentativa de forçar o secretário-geral, Pedro Sánchez, a deixar o cargo. Sánchez, no entanto, insiste em convocar um congresso durante este ano e pedir que os militantes decidam a liderança do partido.
"A atenção não está focada na corrupção, agora", afirmou à reportagem Marta Romero, do think tank espanhol Fundación Alternativas.
"Os casos de corrupção se tornam secundários para o eleitor, diante do impasse político e da crise do PSOE."
