Falta de investimento será entrave para projeto do novo ensino médio
PAULO SALDAÑA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O sucesso e efetividade de uma grade curricular flexível no ensino médio, com a opção de os alunos escolherem trajetórias de aprofundamento, vai depender de esforço e investimento dos governos estaduais. Os Estados concentram a grande maioria dos alunos da etapa.
A MP (Medida Provisória) apresentada nesta quinta-feira (22) prevê que somente parte da grade -equivalente a cerca de um dos 3 anos de aulas da etapa- será comum a todos. Para o restante, haverá a opção de aprofundamento em cinco áreas: linguagens, matemática, ciências humanas, ciências da natureza e ensino técnico.
As redes devem oferecer ao menos duas dessas habilitações. Mas sem ampliação de investimento dos governos, os governos dificilmente poderão oferecer opções variadas em todas as escolas -sobretudo de ensino técnico, visto como um das boas opções para os jovens.
Não há, por exemplo, previsão de aporte da União para influenciar essa flexibilização -ao contrário do que foi anunciado para a ampliação de carga-horária. Sem dinheiro, a oferta diversificada ocorreria apenas em alguns Estados e escolas, o que pode reforçar a desigualdade no acesso.
Raio-x do ensino médio
No conjunto, o projeto representa "um perigo" para a etapa, segundo avaliação de Daniel Cara, da Campanha Nacional Pelo Direito à Educação. "A flexibilização pode ser um bom caminho, desde que baseada em diálogo com os estudantes e professores, diz.
"Do jeito que está, sem prever questões estruturais, não creio que essa reforma terá concretude. Ao contrário, pode servir apenas para desorganizar tudo, além de abrir porteiras para parcerias público-privadas e diminuir os critérios de gasto do FNDE [Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação]", afirma.
As questões estruturais citadas por Daniel Cara são a forma de lecionar para alunos do ensino médio, "e isso não se resolve com a flexibilização", melhoria da infraestrutura das escolas, redução do número de alunos por turma e valorização dos professores.
Entidades educacionais temem que essa flexibilização resulte em um afunilamento formativo dos alunos. "Do ponto de vista da organização curricular, a proposição de opções formativas em ênfases de escolha dos estudantes reforça a fragmentação e hierarquia do conhecimento escolar", informa nota do Movimento Nacional pelo Ensino Médio, que reúne dez entidades do campo educacional, como ANPED (Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Educação).
No manifesto, o movimento cita que o novo modelo contraria a premissa constitucional de assegurar "o desenvolvimento pleno do educando e a formação comum como direito". A MP apresentada nesta quinta-feira (22) que será enviada para o Congresso Nacional tirou, por exemplo, a obrigatoriedade das disciplinas de artes e educação física no ensino médio.
Mesmo com a flexibilidade, aulas de português e matemática serão obrigatórias ao longo dos três anos. Mas há a preocupação entre especialistas de que poucos alunos escolham, por exemplo, o aprofundamento em matemática, tendo em vista o desinteresse e mau desempenho nessa área. Isso poderia aprofundar as dificuldades
