Experimento refuta explicação para desaparecimento de alunos no México
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Num exemplo de como a ciência pode ser usada para esclarecer crimes -ou, ao menos, para desmentir explicações oficiais-, um time de pesquisadores mostrou que a versão do governo do México para o desaparecimento de 43 estudantes em 2014 não se coaduna com a realidade.
Em setembro daquele ano, os universitário sumiram no Estado de Guerrero, no sul do México. O governo sustentou que os 43 estudantes foram mortos por policiais e traficantes e levados para um lixão municipal, onde os corpos teriam sido completamente incinerados.
O caso gerou protestos e saques no país. À época, investigadores e grupos de direitos humanos colocaram em dúvida as explicações e apontaram incongruências nas provas apresentadas.
Agora, um experimento produzido por cientistas da Universidade de Queensland, na Austrália, e divulgado pela revista "Science" mostrou que eles não podem ter sido incinerados no lixão local.
Após incendiar os cadáveres de quatro porcos, em substituição a corpos humanos, os pesquisadores concluíram que a fogueira necessária para consumir os corpos dos 43 estudantes não poderia ter ardido no lixão.
Durante o experimento, mesmo utilizando 630 kg de madeira para um único porco de 70 kg, 10% da carne suína permaneceu após o incêndio terminar, explicou José Torero, um dos responsáveis pelo experimento.
Quarenta e três corpos de um peso semelhante, portanto, teriam exigido no mínimo 27 toneladas de madeira, e alguma matéria orgânica teria sobrevivido ao fogo. Mesmo que o cartel tenha sido capaz de achar tanta madeira na região, a fogueira intensa teria marcado troncos de árvores próximas, diz Torero. Visitando o local dez meses após o desaparecimento, ele não viu tais cicatrizes na vegetação próxima.
O time de pesquisadores também investigou se a gordura corporal poderia servir para alimentar o fogo, facilitando a incineração total. Descobriu-se que cada carcaça suína adicionada enfraquecia a intensidade do fogo. Queimar 43 corpos juntos, portanto, exigiria muito mais madeira do que a queima cada um separadamente.
Torero espera agora que seus experimentos estimulem os investigadores do caso a ir além. "Devemos parar de olhar para o lixão, porque não foi isso que aconteceu".
