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'Nunca é suficiente repetir que é golpe', diz Sonia Braga em Gramado

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GUILHERME GENESTRETI, ENVIADO ESPECIAL*

GRAMADO, RS (FOLHAPRESS) - "Nunca é suficiente repetir que é golpe. Ter criado esse precedente foi um crime", disse a atriz Sonia Braga sobre o processo de impeachment de Dilma Rousseff. Ela protagoniza o filme "Aquarius", de Kleber Mendonça Filho, que abriu o Festival de Gramado na sexta (26) aos gritos de "Fora, Temer", vindos do público.

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A equipe do filme comentou a recepção calorosa que "Aquarius" recebeu na mostra da serra gaúcha. Na plateia da sessão estavam o ministro da Cultura do governo interino, Marcelo Calero, que ouviu berros de "golpista" do público, e o secretário do Audiovisual, Alfredo Bertini.

Numa coletiva de imprensa que durou quase duas horas, a equipe do filme foi questionada sobre o protesto feito no Festival de Cannes, em maio, ocasião em que empunharam cartazes contra o impeachment.

"O que me motivou foi um senso de cidadania", disse Kleber. "A democracia ainda é a melhor forma de sociedade. Quando se quebra esse processo, a situação torna-se problemática. Fora do sistema democrático tem quem não o aceite. Foi um gesto, mais do que um ato."

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"Não sabíamos exatamente como faríamos [o ato], mas cada um vinha com esse pensamento individual. Foi um ato de democracia", disse Sonia.

"Aquarius" estreia em circuito comercial na próxima quinta (1º).

'HEROÍNA' e 'VILÃO'

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Em "Aquarius", Sonia Braga interpreta Clara, uma sexagenária que luta contra uma construtora que tem planos de demolir o prédio em que ela vive, o último remanescente de deu seu estilo na praia de Boa Viagem, no Recife. É um libelo contra a especulação imobiliária que tem em Clara uma "heroína", como define o diretor, e um "vilão" em Diego, o herdeiro da construtora vivido por Humberto Carrão.

"Não é como os outros filmes de realismo social contemporâneo", diz o cineasta. "Se eu tivesse escrito um roteiro em que houvesse um vilão como Eduardo Cunha ou Donald Trump, diriam que não é plausível. Diego é o vilão mais plausível do cinema brasileiro."

"Aquarius" tem trilha sonora bem marcante, repleta de músicas de Taiguara, Caetano, Gil, Queen, Bethânia, Reginaldo Rossi e Roberto Carlos. "O cinema usa muito a música, mas eu queria usar a música para dentro do cinema", afirmou o diretor.

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Kleber também comentou a escolha de Sonia para atuar ao lado de atores pouco conhecidos, boa parte iniciantes. "Ela tem essa cara clássica e incrível de atriz de cinema. Ela traz a história do cinema para dentro do filme."

Sonia disse que aceitou participar da produção após ler o roteiro de "Aquarius". "Ele tinha todas as palavras que eu precisava ouvir naquele momento", contou. Ela elogiou sua experiência no set: "Não diria que me senti em família, porque família é complicado."

CONTRATEMPOS

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"Aquarius" tem passado por diversos contratempos desde que estreou em Cannes. O Ministério da Justiça determinou que sua classificação é de impróprio para menores de 18 anos, o que levou a parte dos profissionais do cinema a considerar que "Aquarius" está sendo retaliado pelo governo interino por causa do protesto na mostra francesa.

O filme também está no centro de outra crise com o governo, envolvendo a comissão do Ministério da Cultura que vai escolher o longa brasileiro a representar o país no Oscar.

"Aquarius" é um dos favoritos à vaga, mas o comitê tem entre seus nove membros um crítico, Marcos Petrucelli, que já usou redes sociais para depreciar do diretor.

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"Esta semana foi febril", diz Kleber. "Mas filmes fazem parte da sociedade, interagem com ela."

Petrucelli afirma que sua contrariedade se limita às posições políticas do diretor e que isso não vai afetar seu julgamento na comissão. Outros membros também negam partidarização.

Secretário do Audiovisual, Alfredo Bertini diz que a polêmica é infundada e que o processo de escolha de Petrucelli seguiu os trâmites normais e teve "transparência absoluta".

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Na última semana, três diretores anunciaram que não mais inscreverão seus filmes na disputa, em solidariedade a "Aquarius": Aly Muritiba ("Para Minha Amada Morta"), Anna Muylaert ("Mãe Só Há Uma") e Gabriel Mascaro ("Boi Neon").

E dois integrantes da comissão deixaram o grupo: o cineasta mineiro Guilherme Fiúza Zenha e a atriz Ingra Lyberato.

Sandra Bertini, mulher do secretário do Audiovisual e atual diretora do festival Cine PE, criado pelo marido, participou da coletiva de imprensa e fez perguntas para a equipe. Ela elogiou o longa, questionou seu orçamento ("quase R$ 3 milhões", segundo a produtora de "Aquarius", Emilie Lesclaux) e disse que o achou "um pouco longo" (tem duas horas e 22 minutos de duração).

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"Cada um tem uma forma de sentir o filme", respondeu Kleber. "Essa é a duração que o filme impôs."

(*) O jornalista Guilherme Genestreti viajou a convite do Festival de Gramado

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