'Talvez seja morto se voltar para Etiópia', diz atleta que protestou em maratona
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Após protestar durante os Jogos Olímpicos, o etíope Feyisa Lilesa, 26, afirmou que não pode voltar para casa. Segundo o maratonista, que conquistou a medalha de prata no Rio, retornar ao país de origem significaria ser morto ou preso.
Assim que cruzou a linha de chegada da maratona, Lilesa cruzou os braços acima da cabeça. Trata-se de uma alusão aos símbolo utilizado por manifestantes anti-governo na Etiópia, numa tentativa de alertar o mundo para o que está acontecendo no país.
Segundo a ONG Human Rights Watch, que monitora violações dos direitos humanos pelo mundo, forças de segurança do país usaram armas letais para coibir protestos no começo de agosto, resultando em "até 100 pessoas mortas". A entidade afirma que mais de 500 manifestantes pacíficos foram assassinados desde que os protestos começaram em novembro do ano passado.
Parte das mortes ocorreu na região de Oromia, à qual Lilesa pertence. "O governo da Etiópia está matando as pessoas [da etnia] Oromo e tomando suas terras e recursos. Por isso as pessoas estão protestando e eu apoio o protesto porque sou Oromo", disse o atleta em entrevista coletiva após a corrida.
"Meus parentes estão na prisão e se falam de direitos democráticos, são mortos. Eu ergui minhas mãos para apoiar o protesto Oromo", afirmou.
O atleta repetiu o gesto durante a cerimônia de premiação da maratona (as medalhas só foram entregues na cerimônia de encerramento). Segundo a agência de notícias AP, a emissora estatal da Etiópia não transmitiu os protestos de Lilesa, substituindo-o por imagens de Eliud Kipchoge, queniano que venceu a prova.
Segundo o "Washington Post", o maratonista afirmou que talvez seria morto se voltasse à Etiópia. "Se não me matarem, vão me prender. Eu ainda não decidi, mas talvez mude para outro país", disse.
O ministro de Comunicações da Etiópia, Getachew Reda, afirmou à rede americana CNN que Lilesa "não deveria se preocupar em retornar" e que o maratonista é "um herói".
Além disso, disse garantir que "é um pouco exagerado dizer que seus entes queridos estarão em risco porque você fez um gesto ou outro. Eu posso assegurar que nada vai acontecer à sua família e nada vai acontecer a ele".
O grupo étnico Oromo, ao qual Lilesa pertence, é formado por 38 milhões de pessoas, constituindo 40% da população total do país. De acordo com a Human Rights Watch, os protestos começaram em 2015 contra uma desapropriação de terras de fazendeiros como parte de um plano nacional de desenvolvimento.
