ATUALIZADA - Na 5ª ação do tipo em SP, grupo invade empresa de valores e deixa um ferido
MARTHA ALVES, SIDNEY GONÇALVES DO CARMO E ROGÉRIO PAGNAN
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Numa nova ação cinematográfica registrada contra empresas de transporte de valores no Estado, um grupo de criminosos armados invadiu a Protege na madrugada desta quarta-feira (17) em Santo André, na Grande São Paulo, depois de ter incendiado carros e caminhões pelo caminho. A ação, que durou cerca de 40 minutos, deixou ao menos um ferido.
Antes da invasão, por volta das 3h30, moradores do bairro Campestre relataram terem sido acordados com o barulho de fogos de artifícios. Na sequência, perceberam vários disparos de fuzis. Foi o quinto ataque do gênero a uma empresa de transporte de valores no Estado de São Paulo nos últimos nove meses.
Os bandidos chegaram em ao menos dez carros e atiraram contra a sede da empresa, na rua dos Coqueiros, para render os vigilantes e invadir o local. Segundo a Protege, nenhuma quantia foi levada durante a ação ?embora moradores tenham visto malotes sendo levados do local.
Além dos veículos incendiados, os ladrões também espalharam pelas ruas das redondezas dezenas de fura-pneus ?objetos com pregos.
Apesar de vários disparos efetuados contra os vigilantes, a empresa disse que um dos vigilantes teve ferimentos leves. Depois, explosivos foram usados pelos criminosos para explodir o portão, que veio abaixo.
"Eu ouvi de quatro a seis explosões", disse o corretor de imóveis Luiz Barros, 54, que mora há cerca de dois meses em um prédio em frente à empresa.
Já o estudante Lucas Neves diz que viu da sacada do apartamento quando os bandidos abordaram um motorista na esquina. "Eu ouvi a gritaria dos bandidos falando 'abre, abre'. Eles ameaçaram o motorista e gritaram 'vaza, vaza'", afirmou Neves, que visitava os pais, que moram em frente ao prédio da transportadora.
Condomínios que ficam ao lado da sede da Protege também foram atingidos pelos disparos dos criminosos e pela explosão. "Com o impacto da explosão, as janelas do segundo andar do prédio ficaram danificadas, algumas até caíram", disse a síndica profissional Edilaine Vasquez, que mora em frente à sede da empresa.
A Protege informou que a atuação dos vigilantes e as barreiras do sistema de segurança impediram o roubo e maiores consequências. "Os criminosos não tiveram acesso ao caixa-forte da empresa. Houve registro de um colaborador ferido por estilhaços, que já recebeu atendimento e, felizmente, passa bem. A Protege aguarda a apuração dos fatos e, para isso, colabora com as autoridades policiais em sua investigação", disse, em nota, a empresa.
A perícia chegou às 6h20 à empresa, mas várias cápsulas deflagradas das armas dos ladrões já tinham sido recolhidas por moradores, durante a madrugada. Um policial do Deic (Departamento Estadual de Investigações Criminais) disse que as cápsulas deflagradas não interferem na investigação.
Policiais que investigam os mega-assaltos dizem que há uma dificuldade imensa para rastrear os suspeitos desses assaltos. Segundo eles, não têm êxito em antecipar as ações porque não conseguem grampear o aplicativo de mensagens WhatsApp.
BLOQUEIOS
A ação dos bandidos prejudicou o trânsito dos motoristas da região. Na avenida do Estado, próximo à Juntas Provisórias, os criminosos cruzaram caminhões na pista para impedir a chegada da Polícia Militar. Um dos veículos foi queimado ?a reportagem viu fumaça no local. Uma bombeira orientava os motorista a não prosseguirem viagem no sentido Santo André.
Um carro foi atravessado e incendiado na rua Presidente Wilson, na região do Ipiranga, no sentido São Caetano. Funcionários de empresas da região observavam à distância. Um caminhão tanque também interditou trecho da avenida Antonio Dellamate, no sentido São Caetano. Policiais militares recomendavam aos motoristas não prosseguir viagem.
ROUBO A TRANSPORTADORAS
Além dessa tentativa de roubo a transportadora em Santo André (Grande SP), o Estado de São Paulo já registrou outros quatro casos: dois em em Campinas, um em Santos e outro em Ribeirão Preto.
As quatro ações resultaram em pelo menos R$ 135 milhões roubados, além de cinco mortes e quatro pessoas feridas. Em média 20 ladrões atuaram por ação. Só R$ 10 milhões foram recuperados e, ao todo, 16 ladrões foram presos.
Moradores e órgãos públicos de cidades alvos de ataques estão se mobilizando para tentar retirar empresas de transporte de valores de bairros residenciais. Em Ribeirão Preto, a Promotoria decidiu investigar, na área cível, a legalidade da instalação das empresas na zona urbana. Um dos focos é saber os critérios usados para a liberação de alvarás para elas.
Há ao menos 34 bases de grandes empresas de transporte de valores instaladas no Estado, 26 delas no interior e no litoral. Em Campinas há quatro bases e, em Bauru, Ribeirão Preto, Santos, São José do Rio Preto e São José dos Campos, três cada uma.
A ABTV (Associação Brasileira das Empresas de Transporte de Valores) afirma que a saída das bases dos locais em que estão só transferirá esse problema de lugar. "Pode construir um bunker, um forte, que não vai resistir ao impacto das armas e dos explosivos usados nos ataques", afirma Marcos Emanuel Torres de Paiva, presidente da associação.
Para Marcos Emanuel Torres de Paiva, presidente da associação, o principal problema enfrentado pelas empresas não é a guarda do dinheiro, mas as armas usadas pelos criminosos, capazes de derrubar aeronaves.
A solução, segundo ele, também não passa pela ampliação do poder de fogo utilizado pelos vigilantes, mas sim por um melhor controle das fronteiras do país.
"Os ladrões migram para onde está o dinheiro. Antes, eram as agências bancárias e, agora, as transportadoras. Se tirar a empresa do centro da cidade, não vai adiantar muita coisa", disse Paiva.
