Longevos, japoneses se identificam com situação de Akihito, diz analista
SARAH BAZIN E JULIANO MACHADO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O discurso do imperador Akihito, 82, em raro pronunciamento na TV japonesa na segunda-feira (8), não chegou a surpreender a sociedade japonesa em relação ao desejo de abdicar.
Há, inclusive, amplo apoio à sugestão do imperador de passar o trono ao primogênito, Naruhito, 56. Uma pesquisa divulgada nesta sexta (12) pelo jornal Nikkei e pela TV Tokyo aponta que 89% são favoráveis a uma mudança legal no país que permita a abdicação; apenas 4% se opõem.
O professor Alexandre Uehara, do Núcleo de Pesquisa de Relações Internacionais (Nupri) da USP, não vê dificuldade para o Japão modificar a Constituição e permitir uma transmissão do cargo de imperador com o monarca ainda vivo.
Em julho, o primeiro-ministro conservador, Shinzo Abe, conseguiu a maioria no Parlamento, deixando o caminho livre para iniciar uma revisão da Carta.
"O fato de haver uma tendência de aumento da expectativa de vida no Japão e a percepção da população do país pela humanização do imperador fazem com que se note a necessidade de mudar a Constituição. O imperador pode avançar na idade, mas não necessariamente com condições físicas suficientes para cumprir os compromissos da sua função", diz Uehara.
Só no ano passado, Akihito participou de cerca de 270 compromissos e 75 viagens.
Uehara acredita, porém, que essa mudança não vá ser simples nem acontecer rapidamente. "A discussão não é somente sobre a mudança da lei para sucessão de Akihito para Naruhito. O príncipe herdeiro tem somente uma filha, e a Constituição não prevê a sucessão para uma princesa. Essa é outra discussão que precisará acontecer conjuntamente. Existem políticos com posições conservadoras, que podem dificultar avanços rápidos", afirma.
O imperador tem, ainda hoje, um status importante no Japão, sendo reconhecido como um ícone da unidade do país. No entanto, diz Uehara, a população jovem não tem mais a mesma relação com o imperador como a que tiveram seus antepassados.
Após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o monarca perdeu seu caráter divino, o que modificou sua relação com o povo. "Isso não significa que haja uma oposição. Os jovens atualmente apresentam indiferença".
Mesmo com uma possível mudança na Constituição, Uehara não vê alteração na politica interna nem externa japonesa, ou ainda na visão do imperador por parte da população. "O príncipe Naruhito tem um perfil muito próximo ao do pai, Akihito, e, no Japão, as mudanças são feitas tradicionalmente de maneira paulatina", diz.
O principal legado deixado por Akihito foi, segundo Uehara, a sua posição pacifista, manifestada nas condenações a ações militares.
