Putin recebe Erdogan e cita volta de relações entre Rússia e Turquia
DIOGO BERCITO
MADRI, ESPANHA (FOLHAPRESS) - Recep Tayyip Erdogan e Vladimir Putin reuniram-se nesta terça-feira (9) em São Petersburgo, na Rússia. O encontro entre os presidentes de Turquia e Rússia marca o restabelecimento das relações entre ambos desde a derrubada de um caça russo próximo à fronteira síria, em novembro.
O atrito diplomático entre Turquia e Rússia levou a sanções econômicas e à queda de 87% no número de turistas russos no país no primeiro semestre deste ano.
Putin, após apertar a mão de sua contraparte turca, afirmou que a visita durante uma "situação política complicada na Turquia indica que todos nós queremos reiniciar nosso diálogo e restaurar nossas relações".
Erdogan disse, antes de reunir-se com Putin, que a Turquia entra agora em um "período bastante diferente" em suas relações com Moscou e que a solidariedade entre os países ajudará na resolução de questões regionais.
Houve uma tentativa de golpe militar na Turquia em 15 de julho, com mais de 240 mortos. Na sequência, Erdogan promoveu um extenso expurgo no país, em gestos repressivos condenados por líderes internacionais.
Mais de 10 mil militares foram presos, 2.745 juízes foram afastados e 8.777 funcionários de segurança pública foram exonerados, entre outras vítimas. Há também perseguição contra a imprensa.
Desde então o líder turco tem reclamado da falta de apoio a seu governo e da reação apática diante de um grave evento político nesse país, com ameaças à segurança regional.
Nesse ponto, Erdogan agradeceu a Putin, um dos primeiros mandatários a telefoná-lo oferecendo apoio.
Em uma entrevista publicada nesta segunda (8) no jornal francês "Le Monde", o presidente turco havia reclamado da falta de "empatia" diante da crise política de seu país.
"O mundo todo reagiu ao ataque contra o 'Charlie Hebdo'. Nosso primeiro-ministro se uniu à marcha nas ruas de Paris", afirmou. "Eu esperaria que os líderes do mundo ocidental reagissem da mesma maneira ao que aconteceu na Turquia e que não se contentassem com alguns clichês."
Erdogan referia-se ao ataque ao semanário francês "Charlie Hebdo", em janeiro de 2015, com 12 mortos. Houve à época uma ampla manifestação internacional pró-França.
COOPERAÇÃO
Apesar da reaproximação entre Turquia e Rússia, a dupla ainda discorda sobre um assunto fundamental na política regional: o conflito civil sírio, em curso desde 2011.
Turquia e Rússia têm posições conflitantes em relação a esse tema. Erdogan pede a saída do ditador Bashar al-Assad, de quem é desafeto. Putin, por outro lado, é um dos mais poderosos -e poucos- aliados do regime sírio.
Mesmo com abordagens díspares, ambos os países são fundamentais para a resolução do conflito. A Turquia tem uma extensa fronteira com a Síria, pela qual passam militantes que mais tarde se unem à facção terrorista Estado Islâmico.
A Rússia, por sua vez, bloqueou uma série de medidas contra a Síria no Conselho de Segurança da ONU, onde tem poder de veto. Um acordo para a transição no país, se um dia houver, provavelmente passará por Moscou.
Outra questão problemática a ser tratada durante o encontro é o apoio russo aos curdos na Síria. A Turquia está em conflito com curdos em seu próprio território.
EXTRADIÇÃO
Erdogan acusa o clérigo Fetullah Gülen, exilado nos Estados Unidos, de ter organizado o golpe frustrado. Gülen nega participação. Nesta terça-feira, o ministro da Justiça turco voltou a pedir sua extradição para o país.
Ele afirmou que o sentimento anti-americano entre turcos está crescendo e só poderá ser acalmado quando os EUA expulsarem o clérigo —um antigo aliado de Erdogan.
Uma pesquisa de opinião recente demonstrou que dois terços dos turcos acreditam que Gülen está por trás do golpe. Há consenso popular de que houve uma conspiração para depôr Erdogan.
