Protesto contra escola nos Jardins provoca tensão entre pais e moradores
PAULO GOMES
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O entra-e-sai de carros importados em um imóvel de alto padrão da rua Groenlândia, no Jardim América, área nobre de São Paulo, desperta a atenção da vizinhança desde a última segunda-feira (1º). Não há nenhuma identificação na fachada, mas, quando os portões se abrem, é possível ver ao fundo a presença de homens e mulheres, incluindo babás uniformizadas, retirando mochilas e crianças dos veículos Volvo, BMW, Mercedes e Mitsubishi.
Na manhã desta quinta-feira (4), das 7h30 às 8h30, os pais que levavam os filhos para essa "discreta" escola se depararam com faixas, cartazes e discursos inflamados de um grupo de 15 vizinhos que decidiram protestar contra a instalação do colégio no bairro residencial.
Trata-se de uma unidade da escola de educação infantil Bright Kids, voltada para crianças de até 5 anos e que, segundo a gestão Fernando Haddad (PT), está em situação irregular pelas regras do zoneamento e será alvo de fiscalização.
"Bright kids, bad education", dizia uma faixa, fazendo trocadilho a partir do nome da escola. "A educação do seu filho começa em uma escola clandestina?", questionava outra. A manifestação foi convocada pela associação de moradores Ame Jardins e gerou tensão entre pais e moradores.
"Vai arrumar o que fazer! Estamos pagando", bradou o motorista de um jipe Mitsubishi Pajero, antes de arrancar com o veículo. "Vão pra casa", gritou outro homem, ao volante de uma Mercedes. "Quem era o barman anotando as placas?", pergunta um terceiro para um manifestante, referindo-se ao repórter, que, de camisa e calça jeans, tomava nota em seu bloco.
O de um Audi preto reage a uma fotógrafa dedicando-lhe o dedo médio. Os raros pais que chegavam a pé com suas crianças tampouco foram receptivos. Uma mãe simplesmente ignorou a abordagem do repórter e seguiu andando. Outra disse preferir não se manifestar. Apenas um pai atendeu a reportagem. "Não acho que a escola teria aberto sem alvará, sem a inspeção necessária", disse ele.
No entanto, a Subprefeitura de Pinheiros, responsável pela área, confirma que a escola não possui a licença de funcionamento para exercer suas atividades. "Será feita uma fiscalização no local para que as medidas previstas na legislação sejam tomadas", informa o órgão.
Além da licença para funcionamento, os moradores reclamam de alterações no imóvel. "O prédio é tombado, tinha um monte de coisa que não podia mexer", diz a administradora Daniela Seibel, 42. "Alteraram o muro e fizeram uma poda enorme lá dentro, arrancaram árvores que não poderiam", afirma ela, que é vizinha da escola.
O trânsito gerado na região também é alvo de críticas. Para entrar na escola, a maior parte dos carros chega pela rua transversal Bucareste, interrompendo o trânsito da rua Groenlândia até a abertura do portão por um segurança uniformizado, para, depois de alguns minutos lá dentro, sair por outro portão.
O empresário Diogo da Luz, 59, critica a segurança do local. "Ainda não tinha nem alvará do Corpo de Bombeiros e já está funcionando, cheio de criança dentro", diz. Um bombeiro que esteve no local nesta quinta para a inspeção, informou que o local está adequado e o certificado da instituição seria expedido ainda na quinta-feira.
Procurada, a escola não respondeu aos questionamentos da reportagem até o momento.
