Folclórico comércio informal nos trens do Rio será retirado na Olimpíada
BRUNO VILLAS BÔAS E LUIZA FRANCO
RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Quem viaja nos trens do Rio deverá passar as próximas semanas sem ver figuras como o Gordo do Trem, vendedor ambulante de chocolate que canta, em ritmo de rap: "Não vem que não tem / Não vem que não tem / Quem quer comprar barato / Compra com o Gordão do Trem".
O folclórico comércio informal nos trens do Rio precisará dar um tempo, pelo menos nos ramais que atendem às estações da Olimpíada, como as do Estádio Olímpico do Engenho de Dentro, do Maracanã e do Complexo de Deodoro, no subúrbio.
Segundo a Supervia, concessionária de trens do Rio, sua equipe de segurança vai intensificar o combate ao comércio ilegal de produtos no período dos Jogos.
Estima-se que 10 mil pessoas vendam produtos pelos trens da Central do Brasil. Biscoitos, chocolates, goiabadas, bebidas, DVDs, maquiagens. Tudo por preços abaixo do comércio formal.
O boato da fiscalização já está circulando entre os ambulantes, mas eles dizem que não vão parar de trabalhar.
O vendedor Wander Santana, 23, que percorre os vagões dos trens da Central oferecendo um salgadinho sabor churrasco, soube do aperto da fiscalização por colegas.
Ele diz que os vendedores estão evitando descer do trem nas estações com instalações olímpicas para evitar a fiscalização, como Maracanã, Engenho de Dentro e Deodoro, todas atendidas pelos ramais Santa Cruz e Japeri.
"O que vai acontecer é que vamos trabalhar mais para o fim da linha do trem, depois das estações da Olimpíada, a partir da estação Magalhães Bastos onde a fiscalização deve ser menos intensa", disse o vendedor.
Outros dizem que podem até ser retirados do trem, mas voltarão em seguida.
"Todos nós que estamos aqui precisamos deste trabalho. Se me tirarem, vou voltar, senão não consigo sustentar meus três filhos", diz o vendedor de chocolates e pastor evangélico Carlos Henrique Mathias, 38.
Também é esse o caso de Adriana Rosa, 39, que vende pipoca nos vagões. Conta que, toda vez que fica desempregada, volta a trabalhar como ambulante. Faz isso há mais de dez anos. Diz que tira cerca de R$ 1 mil por mês para sustentar os três filhos.
Márcio Luis Augusto, 52, não sabia do aperto na fiscalização durante a Olimpíada, mas diz que também não pretende deixar de trabalhar.
"Um dia que não trabalho é prejuízo em dobro: não tenho a minha renda e ainda acabo gastando dinheiro por aí. Então, vou vender em outro lugar", disse ele.
De mochila nas costas e microfone de rosto, ele circula pelo trem vendendo escovas de dentes de "cabo de borracha, limpador de língua e selo de ISO"
Segundo ele, é possível ter uma renda de um pouco mais de R$ 1 mil por mês com a venda do produto. O importante é saber atrair o freguês com "muita lábia".
Ele diz que, geralmente, os seguranças da concessionária pegam a mercadoria e entregam para a guarda municipal, que apreendem os produtos.
Em nota, a concessionária diz que, em geral, as mercadorias são de "procedência não conhecida e, no caso de alimentos, podem oferecer riscos à saúde, já que, por vezes, encontram-se fora do prazo de validade".
