Argentinos encherão estádios nos Jogos, mas terão poucas razões para comemorar
LUCIANA DYNIEWICZ
BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - Eles invadiram o Brasil aos poucos em 2014 até dominarem completamente a praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, às vésperas da final da Copa, com a inesquecível musiquinha "Brasil, decime qué se siente".
Agora, na Olimpíada, deverão adotar o caminho contrário: encherão os estádios nas eliminatórias, mas possivelmente voltarão a seu país conforme os jogos avançarem.
Segundo o comitê organizador dos Jogos, os argentinos foram os latino-americanos que mais compraram ingressos até agora (com exceção do Brasil). No mundo, ficam em terceiro lugar, atrás dos americanos e dos franceses.
Mas, a não ser que essa grande torcida dê uma força milagrosa para os atletas, poucos argentinos deverão ter motivos para sair cantando pelas praias desta vez.
Não é questão de rivalidade, o fato é que as chances de os vizinhos subirem ao pódio são bastante reduzidas.
"Não somos a China. Não é loucura dizer que o país pode não ganhar nenhuma medalha", afirma o jornalista argentino Gonzalo Bonadeo, que está em sua sexta Olimpíada.
Bonadeo projeta que os argentinos subirão ao pódio entre nenhuma e seis vezes neste ano. Judô, hóquei sobre grama, futebol, vela, tênis, basquete e rugby são as principais esperanças -não à toa, as entradas mais compradas por eles (em ordem) foram para basquete, hóquei, atletismo, handebol e futebol.
Em Londres em 2012, a Argentina conseguiu quatro medalhas -ouro no taekwondo masculino, prata no hóquei feminino e bronze no tênis individual masculino e na vela.
O recorde do país são sete medalhas -resultado registrado em duas ocasiões. A mais recente foi há quase setenta anos, em 1948. A outra foi em 1928.
Até Barcelona, em 1992, o Brasil mantinha resultados similares ou inferiores aos da Argentina, com a exceção (e recorde até então) de oito pódios nos jogos de Los Angeles de 1984. Depois de Barcelona, porém, os brasileiros deram um salto e sempre garantiram mais de dez medalhas.
Para Bonadeo, a diferença não decorreu apenas do tamanho das populações. "O Brasil é hoje bastante superior [no esporte]. Há muito patrocínio, inclusive privado", diz.
O jornalista destaca que o esporte de alto rendimento na Argentina recebe 500 milhões de pesos (cerca de R$ 110 milhões) por ano.
Para efeitos de comparação, apenas o programa brasileiro Bolsa Atleta desembolsará neste ano R$ 143 milhões, há ainda patrocínios de estatais e a lei de incentivo ao esporte, entre outras iniciativas.
"Pode ser que vocês, brasileiros, se comparem a países desenvolvidos, mas claramente vocês estão à frente dos demais sul-americanos", destaca Bonadeo.
Santiago Lange, 54 anos, bronze na vela em 2004 e 2008 e um dos argentinos com chance de medalha no Rio, diz que o esporte em seu país precisa de planejamento de longo prazo. "Os dirigentes têm que ter objetivos claros, executar tudo com precisão e serem tão comprometidos quanto os atletas. O esporte precisa ser científico."
Para Belén Succi, do time de hóquei, há grande apoio aos atletas no país, mas os resultados "vêm aos poucos".
Succi lembra que, neste ano, muitos esportistas argentinos se classificaram para os jogos -será a maior delegação da história do país, com 213 competidores.
A equipe feminina de hóquei é uma das maiores apostas dos vizinhos. As Leoas, como são chamadas as jogadoras, já têm duas pratas e dois ouros olímpicos, além de dois campeonatos mundiais.
Todas as integrantes do time jogam por clubes nacionais. Em esportes como natação, basquete e vôlei, entretanto, os melhores atletas argentinos treinam e competem por clubes brasileiros, conta Bonadeo.
