Trump lidera a 'rejeição a sistema corrupto e expirado', diz Don King
ANNA VIRGINIA BALLOUSSIER, ENVIADA ESPECIAL
CLEVELAND, EUA (FOLHAPRESS) - Don King gosta "muito, mas muito mesmo" de Donald Trump, e a recíproca é verdadeira.
O magnata chegou a convidar o lendário empresário de boxe para falar em seu favor na Convenção Nacional Republicana.
King, afinal, é de Cleveland, sede do evento, e tem um bocado a ver com o presidenciável.
O reverendo Al Sharpton, proeminente ativista de direitos civis nos EUA, já disse que, "se King tivesse nascido branco, ele seria Trump".
"Ambos são incríveis na autopromoção e na arte de falar sem parar, mesmo se você não está falando de volta com eles."
Trump é "um grande homem", diz King à Folha de S.Paulo nos corredores da convenção, por onde perambula com seu black power grisalho e uma jaqueta jeans com bordados de motivos patrióticos (da águia à bandeira).
De quem ele gosta bem menos é "daquele Reince".
Reince Priebus é o presidente do Partido Republicano e, segundo o promotor que assessorou boxistas como Mike Tyson (outro fã de Trump), "um canalha".
A rixa começou assim: Trump queria porque queria que King fosse um dos oradores da convenção.
Reince, de acordo com o "New York Times", o convenceu a desistir da ideia. Não pegaria bem escalar um homem acusado de matar dois homens (atirou num ladrão pelas costas e pisoteou um funcionário que teria lhe roubado US$ 600).
King acha que Priebus é um "velha guarda" que "não gosta de negros", incapaz de entender "que uma nova nação se formou".
"Como este homem vem à minha cidade e me trata como se eu tivesse esqueletos no armário?"
Ele está aborrecido, mas logo passa. Tira um jornal do bolso no qual a grande estrela é ele.
Aponta para uma foto e diz: "Aqui, ó: eu, Trump e o pai dele".
A página é uma espécie de coluna social em que King posa com várias personalidades, como George W. Bush, Silvio Berlusconi e Henry Kissenger.
Ele também vai com a cara de Hillary Clinton, a rival democrata de Trump, embora ela não apareça em nenhum retrato.
Em 2014, King apareceu num evento para arrecadar fundos promovido pela ex-secretária de Estado em Las Vegas. "Sou um entusiasta de longa data", disse na época. "Hillary é uma mulher dinâmica, e eu, um lutador pelo direito das mulheres."
Não importa: agora ele está com Trump "porque o povo está com Trump".
Acredita que o magnata pode "liderar a rejeição a um sistema político corrupto, que expirou e que considera como inferiores mulheres e pessoas de cor".
King tem outro "querido amigo" na convenção, Rudy Giuliani. Mas diz ter ressalvas à crítica do ex-prefeito de Nova York ao movimento Black Lives Matter, feita no evento.
"Ele fala que a frase 'vida negras importam' é racista porque exclui todas as outras vidas. Mas defende o Blue Lives Matter [pró-policiais]."
TENSÃO RACIAL
O ex-empresário de boxe afirma que "pretos, na América, não têm o mesmo valor" que outras vidas, e por isso a causa do Black Lives Matter é válida.
"Matam negros indiscriminadamente, sem impunidade. É disso que os meninos estavam falando. Atiram oito vezes pelas costas e dizem, 'ei, só estava tentando salvar a minha vida'."
Trump, como Rudy, já afirmou acreditar que o Black Lives Matter divide a América.
Diz querer lutar pelos negros e, ao "Washington Post", usou o apoio de King para refutar a pecha de racista.
"De fato, sou a pessoa menos racista que você já encontrou. Vou dar um exemplo. Don King provavelmente entende mais de racismo do que qualquer um. E ele não vai ficar ao lado de um racista, ok?"
King, 84, diz que conhece Trump, 70, há quase meio século. A Folha de S.Paulo pergunta qual a sua memória mais querida com o candidato à Casa Branca.
King grita quatro vezes seguidas "viva o Brasil!" e sai andando. Vira-se pela última vez e deseja boa sorte com a Olimpíada.
