Hillary é tudo aquilo de que os EUA já se cansaram, diz vice de Trump
MARCELO NINIO, ENVIADO ESPECIAL
CLEVELAND, EUA (FOLHAPRESS) - "Cristão, conservador e republicano, nessa ordem", apresentou-se nesta quarta-feira (20) Mike Pence, ao aceitar a nomeação para ser o vice na chapa do candidato presidencial do Partido Republicano, o empresário Donald Trump.
Para muitos dos delegados da convenção republicana, foi o primeiro contato com Pence, que, apesar de estar na política há anos, não é um nome de projeção nacional.
"Até agora Donald Trump lutava sozinho", disse o governador do Estado de Indiana (meio-oeste). "Mas depois desta semana ele tem o apoio de todos vocês para ganharmos a eleição de novembro".
Além da sua apresentação, entretanto, o foco do seu primeiro discurso foi a rival democrata, Hillary Clinton. Segundo Pence, a ex-secretária de Estado é tudo aquilo de que os EUA já se cansaram -políticos tradicionais tomando decisão em nome do povo.
"No fim, esta eleição vai ter dois nomes na cédula, então vamos decidir aqui e agora que Hillary Clinton nunca vai se tornar presidente dos Estados Unidos", disse.
"No momento em que os EUA estão pedindo algo novo e diferente, o outro partido respondeu com o nome mais previsível que podia. As pessoas nos dois partidos querem mudança, e democratas estão prestes a indicar uma pessoa que representa tudo aquilo de que este país está cansado", disse.
LINHA DURA
O homem escolhido por Trump para ser seu número dois tem uma longa carreira legislativa, com seis mandatos de deputado federal, antes de ser eleito governador de Indiana, em 2013.
Religioso e linha-dura em temas sociais, ele reúne alguns dos principais atributos que o bilionário dizia procurar em seu vice: conservador, com traquejo legislativo e experiência executiva.
Com a ajuda de Pence, Trump espera romper a resistência a seu nome na cúpula do partido e ampliar o apoio dos republicanos no Congresso. Outra vantagem, apontam analistas, é seu estilo sóbrio, como contraponto ao temperamento de Trump.
Pence admitiu suas diferenças em relação ao "estilo colorido e repleto de carisma" de Trump, mas revelou que quando recebeu a oferta do magnata aceitou imediatamente.
Radialista antes de entrar na política, Pence já se definiu como "conservador, mas não raivoso".
Apesar de sóbrio, já demonstrou que é capaz de partir para a briga contra os democratas. Mesmo antes de ser anunciado oficialmente como você na chapa republicana, ele já começara a disparar críticas a Hillary, cumprindo outra função que Trump espera de seu vice: ser um cão de ataque. Precisa ser "um lutador com habilidade no combate mano a mano", disse o bilionário.
Até Pence entrar na chapa presidencial de Trump, seu momento de maior destaque em escala nacional acabou em derrota. Foi no ano passado, quando assinou a Lei de Restauração da Liberdade Religiosa, que na pratica permitia que estabelecimentos comerciais se negassem a atender gays, para não ferir sua crença religiosa.
Diante da revolta de comerciantes e grandes empresas, porém, ele foi forçado a mudar a lei, num recuo humilhante.
Ainda assim, ter alguém com as credenciais de Pence a seu lado, serviu para que Trump apaziguasse uma parcela dos republicanos conservadores e evangélicos, muitos dos quais haviam apoiado o senador Ted Cruz nas prévias republicanas. O próprio Pence ficara com Cruz na etapa de seleção do candidato do Partido, antes de cair nas graças de Trump.
"Pence é um conservador de verdade, não como Trump. Isso ajuda, mas não me tranquiliza completamente", disse à Folha Ray Hunkins, delegado republicano do Estado de Wyoming.
Admirador de Cruz, ele apoiou o bilionário por falta de alternativa, mas prevê que a disputa será uma "aventura" para quem tem nervos fortes. "Ele é um candidato não convencional, numa época nada convencional".
