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'Hoje em dia tudo vira mercado', diz Zé Celso em debate sobre antropofagia

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Hoje em dia tudo vira mercado, e esse lixo não vale nada. Aqui, estamos fazendo uma insurreição", disse Zé Celso no auditório da Livraria da Vila, na noite desta quarta (20), durante debate promovido pela Folha de S.Paulo para o lançamento do livro "Antropofagia - Palimpsesto Selvagem" (CosacNaify), da escritora, atriz e compositora Beatriz Azevedo.

A ironia de um debate sobre a antropofagia de Oswald de Andrade realizado dentro de um shopping center não passou batida pelo diretor do Teatro Oficina. Elegante em seu casaco das forças armadas soviéticas -adquirido não em outro centro comercial, mas em um brechó de Moscou-, ele seguiu à risca a cartilha do autor do "Manifesto Antropofágico" (1928), usando a voz para insurgir contra o capitalismo e a colonização da cultura nacional, e a pélvis para encorporar em movimentos frenéticos o espírito transgressor.

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"Entrei nesse shopping e parecia o Vaticano do mercado. Há todo um ritual, as pessoas usam suas melhores roupas, e eu também", brincou.

Zé Celso se uniu à filósofa Marcia Tiburi e ao jornalista e mediador Nelson de Sá no debate do livro de Beatriz Azevedo. O texto, uma análise minuciosa do manifesto central para o modernismo brasileiro, coroa uma relação de décadas entre Beatriz e Oswald de Andrade. Amalucada, como a descreve Zé Celso, a multi-artista conheceu a obra do modernista e antropófago aos 13 anos com os versos de "Poesias Reunidas".

A compreensão equivocada, embora popular, do conceito de antropofagia -como reles mistura entre elementos nacionais e forasteiros para reprodução e consumo- a levou a se debruçar sobre a obra do escritor paulistano em sua tese de doutorado pela Unicamp.

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"Vi que não era nada disso, que o Oswald de Andrade nunca afirmava ou estimulava esse consumismo cultural com o estrangeiro, pelo contrário, o "outro" a que ele se referia no manifesto era o ameríndio, o "outro" ancestral", disse. "Sou artista, não tenho pretensões acadêmicas -acho que nem tenho talento para isso- mas resolvi me dar essa tarefa por amor à coisa. Resolvi ser bem meticulosa, precisa, para poder vingar, no sentido tupinambá da palavra, o Oswald de Andrade, para que a partir de agora a gente possa começar uma nova era de leitura e compreensão da antropofagia, em um momento histórico em que é muito mais importante olharmos para esse 'outro' que não está em Nova York ou Londres, mas na Amazônia."

USP

Entre ocasionais protestos contra a gestão do presidente interino Michel Temer, Zé Celso e Márcia Tiburi questionaram a falta de apreço da Academia pelo trabalho filosófico de Oswald.

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"A Marilena Chauí deveria se render ao Oswald, seria como uma vacina antropofágica", falou o diretor teatral.

"Nós ainda não o digerimos. Ele é nosso maior pensador. Um homem que já nasceu póstumo", afirmou Marcia. "Mas a Usp é o departamento francês de ultramar, e ele não daria para ela. Quebraria com essa história de ciência, acabaria com a cafetinagem de Sócrates e Aristóteles", brincou.

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