HC afasta médicos sob suspeita, mas rebate dados de investigação
THIAGO AMÂNCIO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O HC (Hospital das Clínicas) informou, nesta quarta-feira (20), que o médico neurocirurgião Erich Fonoff foi afastado das funções assistenciais e o diretor técnico Waldomiro Pazin tirou licença da instituição.
Ambos são investigados pelo MPF (Ministério Público Federal) e pela PF (Polícia Federal) por um suposto esquema de fraudes em que instruiriam pacientes com mal de Parkinson a procurarem a Justiça a fim de obterem marcapassos cerebrais pelo SUS de maneira mais rápida. Com decisões judiciais, podiam adquirir equipamentos sem licitação, que custavam cerca de quatro vezes mais que o preço com o certame.
O HC, gerido pela USP e pelo governo Alckmin (PSDB), criou uma comissão para investigar as denúncias, que tem 20 dias para apurar o suposto esquema.
Diretores do hospital, contudo, rebateram a informação dada pelos investigadores de que não houve qualquer licitação no período apurado.
De acordo com a diretora clínica, Eloisa Bonfá, e o superintendente, Antonio José Rodrigues Pereira, desde 2009 o hospital comprou 37 marcapassos cerebrais: 36 em um lote com pregão internacional, por R$ 23,7 mil, e outro comprado em urgência, sob ordem judicial, por R$ 53,7 mil -ainda assim, preço de mercado, segundo os administradores da instituição.
O HC diz que entre 2009 e 2016 foram feitos 186 procedimentos para implante dos neuroestimuladores, sendo 34 comprados pelo hospital, 76 por projetos de pesquisa e outros 76 por secretarias de saúde municipais e estaduais de todo o país.
A instituição, porém, não informou os dados entre 2009 e 2014, o que impossibilita a comparação com os números do MPF e da PF -segundo as investigações, pelo menos 154 cirurgias foram realizadas no período, todas elas sem licitação.
O MPF afirmou que não vai comentar os dados divulgados pelo HC. A PF afirmou que as licitações não eram realizadas de modo periódico, o que criava uma "fila paralela", atendida por decisões judiciais.
PREVENÇÃO
Para evitar que outros esquemas fraudulentos aconteçam no hospital, os diretores anunciaram a criação de uma comissão de "compliance", formada por médicos e advogados, que vai criar normas para regular a relação entre médicos e empresas do setor de saúde. O grupo tem até 60 dias para apresentar uma proposta do conjunto de regras.
Além disso, o hospital planeja uma base de dados compartilhada com a Secretaria de Estado de Saúde para acompanhar casos de judicialização, monitorando as comarcas de onde saíram os processos e os profissionais responsáveis pelos procedimentos médicos.
OPERAÇÃO DOPAMINA
A Operação Dopamina tem esse nome em referência à disfunção do neurotransmissor dopamina, cuja deficiência está relacionada ao mal de Parkinson.
Os pacientes seriam orientados a procurar a Justiça para acelerar a obtenção dos marcapassos mesmo em outras cidades ou Estados. Segundo a procuradora da República Thaméa Danelon, responsável pela operação, este "seria um modo de não concentrar tudo no Estado de São Paulo, para não ficar muito à vista."
Investigações apontam que, com decisões judiciais, os marcapassos eram comprados em uma empresa chamada Dabasons, custando até quatro vezes mais. Os beneficiados com as decisões tinham quadros semelhantes ou até menos graves que outras pessoas que estavam na fila para conseguir o exame, segundo as investigações.
Foram alvos de condução coercitiva (quando o investigado é levado para depor e depois liberado) nesta segunda o diretor técnico Waldomiro Pazin, o médico cirurgião Erich Fonoff -responsável por 75% das cirurgias investigadas-, Vitor Dabbah, dono da empresa Dabasons, que importava os equipamentos, e Sandra Ferraz, funcionária da empresa.
Operação Dopamina
A defesa do neurocirurgião Erich Fonoff afirma que ele "mantém relacionamento técnico e científico com diversas empresas do segmento neurocirúrgico", mas que, "como médico cirurgião, ele nunca deteve poder para influenciar o processo de compra de equipamentos no Hospital das Clínicas."
O advogado do diretor administrativo Waldomiro Pazin, Paulo Azevedo Marques, diz que só vai se pronunciar após ter acesso aos detalhes da investigação.
A defesa da Dabasons diz que "a empresa não vende produtos superfaturados nem para o SUS nem para qualquer outro órgão público", e que aguarda o acesso ao conteúdo das investigações para realizar uma sindicância interna.
O Hospital das Clínicas diz que colabora com as investigações desde fevereiro e que entregou todos os documentos e forneceu todas as informações solicitadas.
