Repercussão da morte de Sábato Magaldi
Aderbal Freire-Filho, diretor teatral
"É um dos grandes, não só como crítico, mas ampliando bem esse conceito. Ou seja, não se limitando a escrever críticas de espetáculos em jornais, essa crítica que é necessária, importante, mas circunstancial. Ele tem um trabalho maior de crítica, mais extenso. Foi um crítico nessa acepção ampla de historiografia e não só jornalística. E mesmo do cotidiano teatral, acompanhando a temporada, fez coisas incríveis.
Uma delas era a naturalidade com que encarava a crítica. Geralmente os críticos têm essa discussão eterna sobre parcialidade e imparcialidade. Determinados ensaístas são parciais porque são amigos, e criam o seu grupo, outros têm necessidade de não dialogar. O Sábato fazia essa coisa naturalmente. Não via o menor problema em ficar e conversar sobre uma peça no dia em que fosse vê-la. Ele tinha uma ética tão verdadeira que não era uma troca de ideias que ia influenciar sua opinião. Eu achava isso formidável.
Para um crítico de teatro, essa relação é inevitável. Está todo mundo aqui no mesmo barco, e é um barco tão pequeno. O Sábato não perdia a sua imparcialidade, a sua seriedade, respeito e agudeza por causa de um comportamento. E isso é até bom, porque abria um diálogo.
Ele tinha nessas características acadêmicas e intelectuais a grandeza de um crítico maior, que contribuiu para a história do teatro brasileiro. E na sua dimensão humana, pessoal, era um homem de clareza ética que não se perturbava, que agia naturalmente."
Danilo Santos de Miranda, sociólogo e diretor do Sesc-SP, que editou o volume "Amor ao Teatro"
"Sábato tem uma trajetória fantástica no seu amor e na sua dedicação ao teatro. Era um crítico profundo, profundo conhecedor do teatro brasileiro. Ele se dedicava ao teatro de maneira profunda, foi um homem que entendeu a ampla produção do teatro brasileiro e um crítico que chegou à ABL. Tivemos a honra de fazer esse trabalho ["Amor ao Teatro"], que vai ser um marco. Para nós, é uma perda irreparável"
Domício Proença Filho, presidente da Academia Brasileira de Letras: Sábato era a presença do teatro brasileiro na Academia, e não sem razão. Todo mundo que lida com teatro sabe da importância de sua atividade crítica, iluminadora da cena teatral. Uma crítica militante, de quem ia ao teatro e participava ativamente. Foram 89 anos de vida muito bem vivida. Ele era muito mineiro nos comentários dele, mas quando tinha que fazer a crítica aguda, severa, ele fazia. Era uma crítica severa, mas sempre terna, de aceitação. Não reduzia o outro a nada.
Diria que, diante da fatalidade do inexorável, a gente não se acostuma à morte, é sempre estranha., A gente sente impotência, não entendimento. [A morte de Sábato] significa uma perda não só para os amigos e familiares, mas para o teatro, para a Academia e para a cultura brasileira."
Maria Thereza Vargas, pesquisadora e ex-aluna de Sábato
"Sábato foi meu professor de historia de teatro e com ele eu aprendi a história do teatro brasileiro, aprendi a amar o teatro brasileiro. Era uma pessoa inteligentíssima, muito culta e um homem de teatro, porque ele não só era um critico, mas também ajudava demais a classe teatral. Quando precisavam dele pra alguma reivindicação junto ao governo, ele fazia textos, dava ideias. Além de crítico de teatro e ensaísta, ele foi um homem de teatro muito ativo."
João Roberto Faria, crítico teatral
"Fui aluno dele na pós-graduação na ECA nos anos 1970. Nos tornamos amigos e sempre fui um grande admirador do trabalho dele como crítico e como historiador do teatro brasileiro. É uma perda para nós que estudamos o teatro brasileiro. Ele deixou para nós um legado enorme em seus mais de 15 livros. "Amor ao Teatro" é um testemunho de todo o período em que o teatro brasileiro moderno se consolidou. É um intelectual que sempre se pautou pela honestidade, pela ética. Lembra muito o que Machado de Assis escreveu sobre o crítico no século 19, que ele tem que ser imparcial. Sábato era um exemplo para todos nós de intelectual."
Welington Andrade, crítico teatral
"Ler um texto de Sábato hoje, mesmo se tratando de um espetáculo encenado nos anos 1950, tem muita validade para os estudos teatrais, de dramaturgia e da própria crítica. Além da parte historiográfica. Ele acabou sendo também um historiador do teatro, organizando a obra de Nelson Rodrigues e de Maria Tereza Vargas, sobre os teatros de São Paulo. É impossível não passar pelos textos do Sábato. É o tipo de crítica que orientou grande parte da produção artística. Já ouvi a Fernanda Montenegro dizer que saía de um espetáculo esperando que no dia seguinte saísse uma crítica do Décio, do Sábato ou da Barbara Heliodora.
Sábato era participante ativo da cena teatral, não ficava encarcerado. Conhecia a classe artística e trocava com ela, que esperava ser abastecida por seu manancial teórico. Nas críticas [sobre uma montagem], ele fazia advertências, sanções, explicava. Sua leitura de Nelson Rodrigues -que pode ser debatida-, quando divide as peças em psicológicas, míticas e tragédias cariocas aponta uma linha de criação artística para gerações de encenadores."
