Nice oscila entre normalidade e choque após ataque
FERNANDA GODOY, ENVIADA ESPECIAL
NICE, FRANÇA (FOLHAPRESS) - Vistos do alto, os iates e as lanchas que sulcam as águas do Mediterrâneo no ensolarado dia seguinte ao atentado que deixou 84 mortos em Nice parecem um sinal de que a vida segue apesar da tragédia.
Mas, quando a vista se detém na faixa de areia em frente à Promenade de los Anglaises, não dá para negar a realidade: a praia está completamente vazia. A polícia interditou a elegante avenida beira-mar que abriga o hotel Negresco (o Copacabana Palace de Nice) e virou cenário de guerra na festa nacional francesa, assim como seus acessos. Às 11h, alguns corpos ainda estavam no local aguardando perícia técnica.
Nos pontos próximos às barreiras montadas pela polícia nas proximidades do passeio marítimo, algumas pessoas com os olhos vermelhos de lágrimas e de uma noite insone se abraçam. Flores são depositadas em canteiros, com mensagens de carinho e solidariedade.
No entanto, a vida é estranhamente normal nas ruas de pedestres que desenham essa parte nobre de Nice. Os cafés e restaurantes estão abarrotados, as varandas com mesas na calçada ocupadas por centenas de turistas que bebem, por crianças com os lábios manchados de sorvete.
Em caminhada pelo centro, a reportagem encontrou apenas três lojas fechadas. Na sapataria Gabor, a menos de cem metros do Negresco, um cartaz avisa: "Por solidariedade, fechamento excepcional. Peace and love [paz e amor, assim mesmo, em inglês]".
NADA A SALVO
Nas conversas, os residentes de Nice comentam o atentado que quebrou a paz de uma cidade turística que se considerava a salvo dos ataques terroristas que sacodem grandes metrópoles como Paris, Londres e Istambul.
"Não esperávamos uma coisa dessas aqui. Foi uma noite de medo, medo, medo", diz Malacarne Thibault, 20, que testemunhou o massacre enquanto trabalhava, em um restaurante à beira-mar, na recepção de 180 clientes para a festa da queda da Bastilha. "A praia estava completamente cheia, foi uma correria louca, fechamos as portas, que são muito reforçadas, e conseguimos salvar todo mundo", diz Thibault, que agora só pensa em como e quando reabrir o negócio familiar.
Em Nice, como em toda a França, os cidadãos haviam soltado um suspiro de alívio quando a Eurocopa terminou no domingo (10) sem que nenhum atentado tivesse sido registrado. Mesmo com a derrota para Portugal, o torneio acabava bem.
"Quando começaram a chegar os rumores de atentado na praia, eu não quis acreditar. Me sinto em um pesadelo", diz o diretor-geral do hotel Nice Riviera, Marc Lemaure. Ele havia quebrado uma tradição de 20 anos ao faltar à queima de fogos. Praticamente virou a noite atendendo aos hóspedes.
Na manhã desta sexta (15), o hotel já contabilizava 25 cancelamentos. Turistas que viajam com crianças pequenas também estavam preferindo retornar para casa.
Outros, como o casal de mexicanos Raúl e Marcela Chávez, pareciam conformados com o que o destino lhes reservou: chegar a Nice no "day after" de um massacre de grandes proporções.
"Tenho um sentimento de tristeza, de preocupação com o mundo. Mas tivemos sorte, porque nossa vinda de Marselha foi atrasada em um dia", conta Raúl. "Se estivéssemos em Nice, seguramente teríamos ido à praia ver os fogos do 14 de julho."
