Força de Kiarostami permanecia depois mesmo de o filme acabar
PEDRO BUTCHER
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A morte de Abbas Kiarostami priva o cinema contemporâneo de um de seus mais brilhantes criadores.
Apresentado ao mundo pela "onda do cinema iraniano" que invadiu festivais internacionais a partir do fim dos anos 1980, Kiarostami sobreviveu aos modismos passageiros e deixou como legado uma obra inclassificável e absolutamente original.
Se no começo de sua carreira foi considerado um discípulo de Roberto Rossellini e perpetuador da tradição do neorrealismo italiano, aos poucos sua obra foi se revelando, cada vez mais explicitamente, uma grande reflexão sobre os artifícios da imagem e do próprio cinema.
O aparente realismo de seus primeiros filmes com projeção internacional, como "Onde Fica a Casa do Meu Amigo?" (1987), é resultado direto das próprias condições em que foram realizados.
Em 1969, Kiarostami começou a trabalhar para o Kanun, Centro para o Desenvolvimento Intelectual de Crianças e Jovens Adultos, com a missão de realizar filmes de teor educativo sobre problemas ligados à infância e à juventude. (Daí a importância das crianças não só nos trabalhos dessa fase inicial de sua carreira, mas também de tantos outros filmes iranianos da mesma época, boa parte deles bancada e produzida pelo Kanun).
Em "Close-Up" (1990), a questão do artifício já estava mais evidente, apesar da aparência "realista" e documental. Kiarostami filma uma história que aconteceu com seu amigo Mohsen Makhmalbaf (outro diretor proeminente da "onda iraniana", autor do premiadíssimo "Salve o Cinema", mas cuja obra nem de longe sobreviveu com a mesma força). Makhmalbaf foi vítima de um impostor que se fez passar por ele e prometeu a uma família participação em seu próximo filme. As pessoas que viveram o episódio o reencenam, e o filme termina com o julgamento (real) do impostor.
"O Gosto da Cereja" (1997), que lhe deu a Palma de Ouro no Festival de Cannes, é uma reflexão ao mesmo tempo lírica e profundamente áspera sobre o suicídio. O tema, um tabu no Irã (mas não só), fez com que o filme fosse proibido. O anúncio de que participaria da competição de Cannes aconteceu às vésperas do começo do festival, muito depois do anúncio da seleção oficial, e a cópia chegou à França clandestinamente.
Kiarostami optou por não deixar o Irã após a revolução islâmica de 1979 -"uma árvore transplantada não dá mais frutos", disse-, mas foi enfrentando dificuldades cada vez maiores com a censura e a falta de financiamento.
Talvez pela própria escassez de recursos, seus filmes foram ficando cada vez mais simples e despojados. Passou a filmar em digital. Elaborou dispositivos que tornaram ainda mais rica e complexa sua reflexão sobre os artifícios cinematográficos. "Dez" (2002), todo rodado dentro de um carro (assim como boa parte de "O Gosto da Cereja" e tantos outros filmes), é composto de dez planos e realiza uma crítica profunda à condição feminina no Irã.
Não por acaso, seus dois últimos longas-metragens - pequenas obras-primas, cada um a seu modo - se viabilizaram com financiamento europeu e foram rodados fora do Irã: "Cópia Fiel", 2010, filmado na Itália, e "Um Alguém Apaixonado", 2012, no Japão. O primeiro, com Juliette Binoche, uma reflexão aparentemente mais fria sobre a apropriação e as infinitas possibilidades da vida e da ficção; o segundo, um conto afetuoso e bem-humorado sobre a relação entre um professor mais velho e uma prostituta.
Para qualquer pessoa que ama o cinema, a espera pelo "próximo Kiarostami" era motivo de entusiasmo e alegria. Ficam as lembranças sempre muito vívidas de seus filmes e personagens, carregados de um poder sensorial que só se revelava na permanência dos filmes, muito depois do fim da projeção.
Como a lembrança do homem que tenta convencer o personagem principal de seu filme mais premiado a desistir do suicídio: "Você tem certeza de quer desistir do gosto da cereja?".
