Atriz que representa Ana C. na Flip prefere a poesia de Manoel de Barros
RODOLFO VIANA
PARATY, RJ (FOLHAPRESS) - Ana Cristina Cesar tem 32 anos, nasceu em São Paulo e é fã de Manoel de Barros -ao menos a Ana C. dos vídeos produzidos pela Arte 1 para a 14ª Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), exibidos antes das mesas. Nas peças, a atriz Rita Carelli empresta rosto e voz à poeta homenageada, morta em 1983, aos 31 anos.
"Mas não me acho parecida com ela", diz. Acredita que foi convidada por Iano Coimbra, gerente comercial do canal, para representar a poeta -"sem a intenção de mimetizá-la ou interpretá-la", lembra- devido a "uma certa melancolia no olhar". Isso, sim, ela acha que tem de Ana C.
Antes do convite para a série de curtas "Duas ou Três Coisas que Eu Sei de Ana Cristina Cesar", a atriz conhecia "A Teus Pés", somente. Precisou fazer um mergulho não apenas na obra poética da niteroiense, mas também em entrevistas e fotos. Emergiu com a impressão de que, na voz de Ana C., havia tanto candura quanto aflição.
"E foi essa aflição que eu tentei buscar nos vídeos", explica. "Na leitura eu busquei flertar com essa doçura violenta dela."
Carelli conta que gravou os vídeos numa diária única, em 13 de junho, em São Paulo. "Fazia 4ºC", lembra, "e enquanto a equipe estava toda encapuzada e agasalhada, eu estava seminua ou deitada numa banheira, morrendo de frio", ri -e, apesar do riso, afirma: "Foi um dia melancólico".
PÉ NA LITERATURA
A exemplo de Ana C., Carelli também tem um pé na literatura -mas, no seu caso, voltada às crianças. Escreveu e ilustrou alguns títulos da coleção infantil "Um Dia na Aldeia", lançada em 2004 pela Cosac Naify. A série busca levar ao público mirim um pouco da cultura indígena -algo comum para Carelli, que passou a infância em aldeias.
"Com um pai cineasta ligado à causa indígena e uma mãe antropóloga, fui criada no meio da natureza", conta. Crescida, foi palhaça na trupe dos Doutores da Alegria, fez curtas que emplacaram prêmios e morou na França.
Veio à Flip de 2016 para lançar o infantil "Família de Todo Jeito", sobre diversidade na constituição familiar. Ela assina as ilustrações, enquanto a escritora Ana Claudia Bastos fica com o texto.
Em poesia, área da Ana C. verdadeira, Carelli -que se inspira em Manoel de Barros- diz que "tem algumas coisas rabiscadas em cadernos", mas não pretende publicá-las tão cedo. "A poesia exige uma relação de muita maturidade com a linguagem, requer uma precisão muito especial".
