Pesquisadoras debatem o animalesco no homem e a humanidade dos bichos
RODOLFO VIANA, ENVIADO ESPECIAL
PARATY, RJ (FOLHAPRESS) - Polvo Paul, o profeta em forma de molusco que acertou resultados de jogos na Copa do Mundo de 2010 --e morreu ainda naquele ano-- foi ressuscitado na noite de sábado (2), durante a 14ª Flip (Festa Literária Internacional de Paraty)
"Veja o polvo Paul. Os animais compreendem as coisas", comentou Maria Esther Maciel, professora de literatura da Universidade Federal de Minas Gerais que estuda a representação dos bichos em obras literárias.
Ela dividia a mesa "O falcão e a fênix" com Helen Macdonald, pesquisadora de história da ciência da Universidade de Cambridge.
Baseada em seus estudos, Maciel garantiu que "os animais têm os seus saberes sobre o mundo". "Cabe aos poetas, aos escritores capturar essa subjetividade deles e traduzir isso em palavras."
Clarice Lispector, segundo Maciel, tentou essa tradução ao dar ao cão Ulisses o papel de narrador na obra "Quase de Verdade". "O cachorro latiu a narrativa a Clarice, que transcreveu", disse.
Ela acredita haver várias linguagens animais, mas que se furtam à definição precisa do homem. Para sua obra mais recente, "Literatura e Animalidade" (Civilização Brasileira), contou com a cumplicidade de Lalinha, sua cachorra, com quem "a comunicação se dava pela troca de olhares" e que "ensinou muito sobre minha própria animalidade", afirma.
Macdonald conhece os animais de maneira mais íntima. Acreditou que estava prestes a se tornar um, afirmou à Folha de S.Paulo. No livro "F de Falcão" (Intrínseca), recentemente lançado no Brasil, ela narra como buscou superar a dor da perda do pai, morto subitamente em 2007, ao lado de Mabel, uma fêmea de açor --a mais temida espécie de falcão.
"Eu percebi que, como eu não conseguia domesticar o luto, tentava domesticar um falcão", disse. Para isso, retomou a falcoaria, prática de sua infância que, segundo ela, "tem 5.000 anos de história".
Maciel explicou que a exclusão da animalidade do homem ocorreu na Idade Média, quando a religião relacionou-a à sexualidade e à loucura. "Passou a ser o lado maldito e, por isso, alijado da humanidade", disse. "E todo o conceito de sociedade se construiu em cima disso."
O "penso, logo existo" cunhado pelo filósofo francês René Descartes segregou ainda mais homem e bicho. "O triunfo da razão expulsou o animal, que ficou associado à irracionalidade", comentou Maciel. "E na época vitoriana, a animalidade foi explorada na forma de monstros: vampiros, lobisomens..."
