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Mesa analisa linguagem e feminismo de Ana C. Cesar e Clarice Lispector

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LÍGIA MESQUITA

PARATY, RJ (FOLHAPRESS) - Uma fé inabalável na linguagem e o feminismo são alguns dos elos que unem a escritora Clarice Lispector e a poeta Ana Cristina Cesar, homenageada deste ano na Flip (Festa Literária Internacional de Paraty).

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A proximidade entre as duas autoras brasileiras foi analisada pelo americano Benjamin Moser, biógrafo de Clarice, e pela crítica literária Heloisa Buarque de Hollanda, primeira editora de Ana C., na segunda mesa deste sábado (2) no evento literário. A conversa foi a terceira da programação a ter os ingressos esgotados.

"Uma coisa que as duas tinham igual era a aposta da linguagem como significação. Ana Cristina é linguagem pura. E Clarice também", falou Heloísa. "Quando Clarice chega em 'Água Viva', Ana Cristina pega esse bonde."

Os dois lembraram que um certo tom místico e a busca por um Deus, que não o estabelecido pelas religiões -o judaísmo, no caso de Clarice, e o protestantismo, no de Ana C.- também marcam a escrita delas.

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Moser contou que Clarice renunciou a esse Deus da religião quando perdeu a mãe aos nove anos.

"A literatura que mexe com a gente é de vida ou morte, não é uma coisa para ficar falando na Flip", disse o americano, sob aplausos. "E no caso da Clarice e da Ana isso matou elas literalmente. Mas sem essa força, esse desejo, elas não teriam chegado aonde chegaram."

Heloísa lembrou que Ana C. chegou a dizer que brigou com Deus, mas nunca o fez para valer.

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Outro ponto em comum de Ana C. e de Clarice é a abordagem do feminismo. Segundo Heloisa, a literatura de Ana C., desde o começo, é a pergunta pelo o que é ser mulher, o que é o feminino.

"Se eu disser em alguns ambientes que Clarice e Ana Cristina são feministas, vão dizer 'Nããão, elas são escritoras', porque hoje feminismo é xingamento! Mas quem é que não é a favor dos direitos iguais?", falou.

A crítica literária lembrou que Ana C. chamava a intimidade de feminino. "Discriminava os homens, né?", perguntou. "Bastante", riu Moser

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O americano disse abordar muito a questão feminista na obra de sua biografada. "Ela não fica calada pelo matrimônio, pelos filhos, pela indiferença."

E lembrou que em um de seus contos, Clarice narra uma mulher de 81 anos se masturbando. "Te faz pensar que a sexualidade de uma velha nunca foi descrita", falou.

"Hoje em dia a mulher como escritora é algo tão comum que esquecemos que é uma coisa nova. Fico feliz de anunciar que a Clarice foi a primeira que fez isso."

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