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Em grande momento, Knausgård faz declaração de amor à literatura

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MAURÍCIO MEIRELES E JULIANA GRAGNANI, ENVIADOS ESPECIAIS

PARATY, RJ (FOLHAPRESS) - Foi uma promessa que se cumpriu. No que talvez seja o ponto mais alto desta Flip até aqui, a mesa com o escritor norueguês Karl Ove Knausgård, na tarde desta sexta-feira (1º), foi uma declaração de amor à literatura como um espaço não só de busca de liberdade, no qual o homem pode desvendar a própria identidade.

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Foi a mesa mais lotada até agora em Paraty. O norueguês é autor da séria memorialística "Minha Luta" (Companhia das Letras).

O principal momento foi quando o mediador, Ángel Gurría-Quintana, destacou como o sentimento de vergonha é presente na obra do norueguês -e questionou o autor se seus livros eram um modo de se livrar da vergonha.

"Não, quando você escreve, não tem ninguém na sala. Escrever é se colocar numa situação de total liberdade. Era isso que eu tentava quando escrevi esse livro", afirmou o autor. "Quando o livro é publicado, a vergonha volta."

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Ele conta que, em um de seus primeiros livros, um editor escreveu que a obra era um "monumento à vergonha" -e só então o autor entendeu que estava escrevendo sobre esse sentimento.

"Se você se interessa pela identidade, você se interessa pela [questão da] vergonha", afirmou. "Depois de dez anos tentando escrever, eu consegui. A escrita veio e havia uma liberdade ali. Foi uma dádiva."

Quando começou a publicar, o primeiro livro estourou e precisou partir para o segundo volume, o escritor conta ter percebido que sua busca não era pela fama literária -porque escrever era como ler, encontrando "um lugar onde se pode ser livre".

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Ao dizer isso, ele se referia também à criação repressora que teve. E dos problemas com o pai, de quem ele desejava a morte.

"Me sentia tão reprimido que, na leitura, buscava essa liberdade. É um desejo de estar vivo. Escrever era um jeito de chegar lá, e eu não consegui", afirmou. Knausgård não foi questionado sobre o que quis dizer com essa afirmação melancólica.

Ao escrever sobre sua própria vida, afirmou Knausgård, ocorre um processo de descoberta de si. "Escrever é lidar com coisas que não se sabia antes. Isso é literatura. É por isso que se escreve. [Você pensa:] Este não sou eu, de onde isso veio? É uma dádiva do céu?"

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O sentimento de uma espécie de missão artística por parte do escritor ficou clara quando o mediador lhe perguntou se não havia pensado nos problemas de expor seus segredos e os de outras pessoas.

"Vi que o livro era mais importante, não eu. Por isso escrevi segredos que não contaria a ninguém. O livro não é uma escrita sobre mim, isso seria entediante. É uma busca."

Ele leva essa visão tão a sério que, apesar de ser ameaçado de processo pela família, resolveu seguir em frente para mais um volume da série, porque sabia que "seria bom".

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Com a afirmação, é como se Knausgård ecoasse o mito recorrente na história literária do artista que oferece um sacrifício para deixar uma obra como legado.

BABA-OVES

Na parte de fora, no telão, 400 pessoas assistiam sentadas à mesa. A reportagem contou mais cerca de 250 em pé. Cerca de 150, por sua vez, esperavam na fila para conseguir autógrafos do autor após o fim da apresentação.

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Teve até quem levou um bonequinho de biscuit de Knausgård, como o fã Thiago Pontes, 27, que ganhou o objeto de aniversário na semana passada. "O tempo inteiro me vejo no que ele escreve. A intimidade que ele projeta é universal."

O norueguês tem um apelo entre leitores ente 20 e 35 anos -ele mesmo reconhece isso, segundo disse à reportagem. "Acho que há poucos autores que escrevem sobre o homem comum."

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