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Ana C., 'culta e cult', é lembrada por amigos na Casa Folha

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WALTER PORTO, ENVIADO ESPECIAL

PARATY, RJ (FOLHAPRESS) - A memória de Ana Cristina Cesar (1952-1983) tomou a Casa Folha na segunda mesa desta sexta (1º), encarnada na presença dos amigos Marcos Augusto Gonçalves, editor do caderno "Ilustríssima", da Folha de S.Paulo, e a crítica literária Heloísa Buarque de Hollanda.

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"A Ana era culta e cult", disse o jornalista, que conheceu a poeta em 1977 e chegou a namorá-la "durante uns dois anos, entre idas e vindas".

"Quando ela foi para Londres fazer mestrado, a gente estava namorando. Quando ela voltou, não estávamos mais", disse, arrancando risadas da plateia.

Heloísa, autora da antologia "26 Poetas Hoje", que ajudou a fazer Ana Cristina despontar, contou tê-la conhecido ao ouvir boas referências de sua obra pela também professora Clara Alvim. "Mas Ana fugiu de mim. Só fui encontrá-la no lançamento da antologia".

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Além da relação professora-aluna -Heloísa orientou o mestrado de Ana na UFRJ- as duas foram se tornando amigas, segundo a crítica literária, que emprestava sua casa em Búzios para a poeta passar o fim de semana com Marcos Augusto.

As duas também partilhavam um interesse inusitado: novelas da TV Globo, onde Ana C. trabalhou. "Ela adorava trabalhar lá, era noveleira, e eu também. Nas nossas cartas, o assunto novela era total. Não para pensar, discutir, analisar. Era pra ficar chorando".

Gonçalves lembrou de outros gostos populares da autora, que tem fama de ser leitura difícil e intelectual. "Ela gostava muito de coisas da cultura de massa, com o olhar refinado dela. Gostava muito mais de Roberto Carlos que de Chico Buarque".

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Heloísa complementou: "Nos anos 60, gostar de Roberto Carlos era uma atitude de extrema direita".

Os debatedores relacionaram a personalidade da poeta com sua obra. Segundo Heloísa, "Ana fazia literatura o tempo todo, mesmo com as roupas. Ela escolhia uma personagem a cada vez que se vestia. Ela tinha uma performance intelectual, de que não abria mão".

Para a crítica literária, Ana Cristina Cesar "pertencia a essa coisa da contracultura, mas tinha uma diferença. Ela escreve completamente diferente dos poetas marginais, que procuravam o improviso, uma coisa descartável, do momento. Ela, de cabo a rabo, era literária".

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Gonçalves concordou: "Ela era diferente dos poetas intuitivos. Ana tinha uma coisa meio scholar, poderia dar aula em faculdade".

VELHOS CONHECIDOS

A conversa foi interrompida a certa altura por um homem que, de fora da casa, protestava contra detalhes das histórias. Instado a se revelar por uma intervenção de Heloísa, ele se apresentou como Flávio Cesar, irmão de Ana Cristina, e foi convidado a se juntar à mesa.

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"Durante muito tempo, a irmã foi maior que a poeta pra mim. Apesar de ter só dois anos a mais que eu, ela era de uma geração diferente, muito rica, que me apresentou", compartilhou ele.

Além disso, uma das perguntas dirigidas a mesa era de uma ex-professora de português da poeta, que contou, emocionada, que era chamada por ela em cartas de "ex-sempre-professora".

A palestra foi mediada por Alcino Leite Neto, editor da Três Estrelas, selo editorial da Folha de S.Paulo.

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