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'Relação entre cérebro e consciência cria poesia', dizem especialistas

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JULIANA GRAGNANI E LUIZA FRANCO, ENVIADAS ESPECIAIS

PARATY, RJ (FOLHAPRESS) - A "poesia suprema", na visão de dois estudiosos do cérebro, está na relação entre o cérebro e a consciência. O neurocirurgião inglês Henry Marsh e a neurocientista carioca Suzana Herculano-Houzel, colunista da Folha de S.Paulo, comentaram essa relação misteriosa na noite desta quinta (30), na Flip.

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"Não fazemos ideia de como a matéria física dá vida à nossa consciência", afirmou Marsh. Suzana disse que "poesia suprema" é "olhar para aquela matéria e entender que são moléculas, mas que, por causa da maneira muito particular que se organizam, se transformam num ser que pensa, que tem opiniões sobre o Universo".

"A ideia de que sentimentos como medos e afetos consistem basicamente de geleia branca é incrível", observou Marsh.

"BREXIT"

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Marsh lamentou o "Brexit", decisão do Reino Unido de sair da União Europeia. "Nunca achei que fosse passar por isso. Fiquei muito triste. No Reino Unido, 80%, 90% das pessoas são tratadas no sistema de saúde público. Se a economia sofrer com o 'Brexit', o sistema pode sofrer também", afirmou, sendo aplaudido.

Herculano-Houzel também foi aplaudida ao falar sobre sua própria polêmica: a decisão de deixar o Brasil para fazer pesquisa nos EUA, para onde se mudou há um mês e meio. "Agora eu não sou a minha própria agente de viagens, eletricista, torneira mecânica. Eu chamo isso de mundo real, onde as empresas funcionam. Se eu fosse de qualquer outra área, isso não seria da conta de ninguém."

"Estou feliz da vida. É uma pena que isso não seja o que os jovens do Brasil podem aspirar num futuro próximo", disse, também aplaudida.

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Marsh disse que ter escrito um livro sobre seus erros na neurocirurgia, "Sem Causar Mal" (nVersos, 2016), não os exorcizou, e contou como foi o primeiro grande erro que cometeu em um paciente, explicando por que parou de ouvir música enquanto opera -quando deixou um paciente em coma por causa de um erro médico, escutava música na sala de operação.

"Há coisas piores que a morte. Você pode deixar deficiente alguém que estava bem antes. Isso é uma agonia peculiar aos neurocirurgiões", afirmou. "As pessoas pensam que a neurocirurgia é algo extraordinário, mas o negócio não é ter mãos firmes, é tomar decisões. E na vida aprendemos mais com os erros. A tragédia é que, quando médicos erram, os pacientes sofrem."

HOMO "CULINÁRIOS"

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Herculano-Houzel arrancou aplausos da plateia dizendo que o cérebro humano não tem nada de extraordinário, e a espécie humana não deveria se chamar homo sapiens, mas homo "culinários" -porque a única coisa diferente que a espécie faz é cozinhar.

"O entendimento de que nossa espécie não é particular deveria nos dar uma apreciação muito mais humilde do lugar que temos na Terra", afirmou.

Será que o desenvolvimento tecnológico poderia permitir que um computador criasse poemas como os da homenageada desta Flip, Ana Cristina Cesar (1952-1983)?, perguntou o mediador, o repórter de ciência da revista "Piauí", Bernardo Esteves.

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Para Marsh, não. "Não podemos prever o futuro mas acho improvável por duas razões: porque a consciência não pode ser estudada e porque há limite para o quanto podemos experimentar com o cérebro humano."

E viver para sempre, será possível um dia?

"Acho improvável", diz o médico. "Mesmo se fosse possível, seria uma péssima ideia. Seria caríssimo. Só os ricos poderiam fazer isso."

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Herculano-Houzel concorda. "Acho que não. Você pode atrasar a morte, viver bem, mas o final dessa história é inevitável."

Uma pessoa da plateia perguntou se todos os cérebros são iguais do ponto de vista estético. Marsh respondeu que o cérebro vivo "é como ver a Terra do espaço".

Herculano-Houzel, que estudou cérebros de primatas, disse que os mais feios são os de cavalos, zebras e girafas. O mais bonito, o de guaxinins.

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