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Em debate, Caco Barcellos e Misha Glenny defendem dar voz a bandidos

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LÍGIA MESQUITA, ENVIADA ESPECIAL

PARATY, RJ (FOLHAPRESS) - Por que a voz de um bandido não poderia ser ouvida e sua história contada?

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Essa foi uma das perguntas levantadas em um debate sobre jornalismo e narcotráfico com os repórteres Caco Barcellos e Misha Glenny, mediados pelo jornalista Ivan Marsiglia, na tarde desta quinta (30), na Flip (Festa Literária Internacional de Paraty). A mesa, a terceira do dia, terminou aplaudida de pé pela público que lotou a tenda dos autores e a do telão.

O britânico Glenny, que já foi correspondente do "Guardian" e da BBC, acaba de lançar "O Dono do Morro: Um Homem e a Batalha pelo Rio" (Companhia das Letras), biografia de Nem, ex-chefe do tráfico na favela carioca da Rocinha. E Barcellos é autor de "Abusado" (ed. Record), sobre o traficante Marcinho VP, do morro Santa Marta.

Barcellos lembrou que quando ouvia críticas por perfilar um traficante, "como se ele não fosse um ser humano", as rebatia perguntando a diferença em relação a contar a história de pessoas da "elite branca" envolvidas em falcatruas, ou a de um governador corrupto, por exemplo. "Acho que há preconceito de classe. Se é bandido de classe baixa, não deve ter voz. Se pertence à elite, nem é chamado de bandido, é acusado de ter cometido um crime."

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Para o jornalista que comanda o "Profissão Repórter" (Globo), dar voz e iluminar a história das pessoas do morro é uma maneira de entrar no universo de todos. "Ao iluminar a história dessas pessoas do morro estamos entrando no universo de todos. Para conhecer os dois lados de uma história, é preciso conhecer o lado daqueles que pouco recebem visita do repórter. Eu raramente vi um promotor público ou um juiz nas favelas. É um ambiente que não é frequentado nem por aqueles que precisam frequentar, como nós jornalistas", disse.

E completou: "Desculpe pelos intelectuais que estão aqui, mas os trabalhadores de baixa renda são muito mais bem informados do que vocês, do que nós. Porque eles conhecem os dois lados da moeda. Quem mora no morro conhece as duas realidades. A empregada doméstica na casa do bacana conhece toda a intimidade deles. Já o bacana, nem no dia que o filho dela é morto pelas chamadas tropas de elite, se indigna a visitar essa mulher."

Falando fluentemente português, língua que aprendeu durante a escrita do livro-reportagem sobre Nem, Glenny contou que, para ficar perto dessas pessoas que conhecem os dois lados da história, decidiu morar alguns meses na Rocinha. "Você tem que vivenciar o barulho, o saneamento aberto, o cocô de cachorro em todo lugar. Para mim, com 55 anos como classe média de Londres, foi difícil."

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O inglês contou ter escolhido fazer um livro sobre Nem porque o traficante ocupou durante cinco anos o poder que seria do Estado na favela. "Ele foi o poder politico na favela. Foi o chefe da cocaína, tinha uma responsabilidade para muitas pessoas. E isso é geralmente uma história não escrita", falou. "O dono do morro tem três instrumentos para organizar a favela: monopólio da violência, o apoio da comunidade e a corrupção."

CRISE DO JORNALISMO

Os dois repórteres também comentaram o momento atual do jornalismo.

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"Acho que a gente vive um momento que não é brilhante para o jornalismo investigativo", afirmou Barcellos. Falando principalmente do Brasil, ele disse que o jornalismo atual é "uma reprodução de dossiês". "Quem está investigando é o promotor. Não venham me dizer que é reportagem. Na reportagem, você tem o dever de provar que as coisas são verdadeiras antes de levá-las a público."

Para Glenny, a internet está transformando o mundo todo. "Os jornais não têm dinheiro, a profissão está mudando e estamos nos afogando nas informações", disse. "Não temos confiança na verdade das informações. Isso será um problema fundamental para a sociedade no futuro. A gente precisa de uma imprensa livre e independente. E cada dia a imprensa é menos independente e menos livre."

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