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Rocinha se tornou marca registrada na época do Nem, diz Misha Glenny

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RODOLFO VIANA, ENVIADO ESPECIAL

PARATY, RJ (FOLHAPRESS) - Demônio para uns, Robin Hood para outros. Entre os extremos está Nem, ex-chefe do tráfico de drogas na favela da Rocinha, no Rio, segundo o jornalista Misha Glenny, que lança na 14ª Flip a biografia "O Dono do Morro: Um homem e a batalha pelo Rio".

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Durante entrevista coletiva na manhã de quinta (30), Glenny, que morou alguns meses na favela para escrever o livro, contou que conheceu a história de Nem em 2011, quando o traficante foi preso. Ele estava no Rio e percebeu que aquela prisão "foi um acontecimento público". "Me lembrou da prisão de OJ Simpson", comenta.

"Nos dias seguintes, eu lia tudo sobre Nem nos jornais, assistia à TV... E fiquei impressionado que a metade do Rio acreditava que ele foi um demônio, e a outra metade considerava ele um herói, um Robin Hood", diz.

"Eu queria explicar lá fora como funciona o Brasil, pois é um país muito mais complexo que os clichês samba, futebol... E as pessoas tem uma imagem historicamente simplista", diz. "Eu queria explicar essa complexidade."

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Complexidade sintetizada na história de Antônio Francisco Bonfim Lopes. Aos 24 anos, o entregador de revistas subiu o morro para pedir empréstimo ao chefe local, Lulu, para o tratamento da filha bebê, Eduarda, que desenvolvera uma doença rara, histiocitose X. Acabou se tornando ele mesmo o dono do morro.

Para Glenny, o dono do morro -que não é apenas o chefe da favela, mas uma espécie de presidente local- tem três instrumentos para exercer seu poder: o monopólio da violência, o apoio da comunidade e a corrupção da polícia.

"Nem diria que o [instrumento] mais importante para ele era o apoio da comunidade; os delegados que o investigaram diriam que foi a corrupção da polícia", afirma o jornalista.

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"Quando Nem se tornou chefe do morro da Rocinha [em 2005], a taxa de homicídios na favela caiu", lembra.

O jornalista aponta que Nem percebeu que se a taxa de homicídio na favela caísse, o lucro dos negócios locais subiria -não apenas do tráfico, mas também dos empreendimentos da população local. "Se você olhar tudo o que ele fez, nota que ele começou a canalizar os lucros do tráfico para um sistema social embrionário."

"Isso teve impacto no comércio de cocaína, porque os consumidores são jovens de classe média que moram em Leblon, em Ipanema, na zona sul em geral. Como a Rocinha se tornou um local seguro para comprar droga, começou a vir muita gente de fora, trazendo dinheiro", explica.

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Assim, "a Rocinha se tornou uma marca registrada na época do Nem. Todo mundo queria frequentar a favela. Jogadores, músicos, artistas, políticos... Pois sabiam que ali era um lugar seguro."

RECURSOS E JOGOS

Glenny imagina que "a situação [de violência] nas favelas ficará estável até o fim dos Jogos Olímpicos", mas teme que, depois disso, "o cenário se torne muito pior não apenas no morro, mas também no asfalto".

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O motivo: as UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) estão "em colapso", na visão do jornalista.

"Morro e asfalto, apesar de muito separados, são intimamente ligados social, econômica e politicamente, mesmo que as pessoas não percebam isso", diz. "E há uma falha do Estado no apoio das UPPs e do lado social. Todas as UPPs diminuíram a taxa de homicídio, mas os índices de crimes como furto, violência doméstica e estupro aumentaram em todos os lugares."

Ele lembra do caso do ajudante de pedreiro que desapareceu em 2013 -ou, como ficou conhecido, o caso Amarildo, um símbolo da violência policial. "O caso Amarildo quase derrubou as UPPs, mostrou o quanto elas são frágeis", diz.

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"E estão especialmente mais frágeis agora, com a crise no Brasil", diz.

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