ATUALIZADA - Com metade da apuração, saída da UE leva vantagem em plebiscito
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Com mais da metade das zonas eleitorais apuradas, a opção pela saída do Reino Unido da União Europeia leva pequena vantagem para a permanência, confirmando a expectativa de uma disputa apertada no plebiscito desta quinta (23).
Até as 4h desta sexta (0h em Brasília) e 54% dos distritos de apuração concluída, o "sai" conquistava 51,4% dos votos válidos, enquanto o "fica" tinha 48,6%. Mais de 15,5 milhões de sufrágios haviam sido contados.
Como previsto nas pesquisas de intenção de voto, a votação pela permanência concentrou-se na Escócia e nas grandes cidades, como Liverpool e Manchester. Em Londres, também predominava a opção por ficar na União Europeia.
A saída tinha a preferência no leste e no norte da Inglaterra e em parte do País de Gales. O resultado oficial só deverá ser anunciado nas próximas horas. A votação teve número recorde de eleitores registrados -46,5 milhões.
Nos últimos dias, a margem entre as duas opções foi reduzida devido ao assassinato da deputada trabalhista Jo Cox, pró-Europa, por um ultranacionalista no dia 16. Até então, a saída levava vantagem dentro da margem de erro.
O primeiro político a reagir aos resultados foi o líder do partido anti-imigração Ukip, Nigel Farage. Após o fechamento das urnas, às 22h (18h em Brasília), ele disse que "parece que a permanência ficará na frente".
Horas depois, com os primeiros resultados favoráveis à saída, mudou de ideia e "disse ter esperança de uma vitória". Outros líderes da campanha pela saída, como o ex-prefeito de Londres Boris Johnson, ainda não se manifestaram.
O mesmo não foi feito pelo primeiro-ministro, David Cameron, partidário da permanência.
EFEITO DOMINÓ
Mesmo com a prevalência da união, o placar apertado indicado pelas pesquisas revela um país dividido e, segundo analistas, promete despertar um sentimento anti-UE continente afora.
Há risco de efeito dominó entre outros países do bloco, que podem tentar imitar a consulta popular para obter vantagem em negociações.
O professor de política Tim Bale, da Universidade Queen Mary, de Londres, pondera que o "efeito dominó" tem mais força caso o Reino Unido deixe efetivamente o bloco -um processo que, após a consulta popular, ainda precisaria ter aval do Parlamento e envolveria ao menos dois anos de negociações.
"Depende de quão bem irão as coisas para o Reino Unido fora da UE", adverte.
O professor salienta que será preciso um "sucesso estrondoso" dos britânicos secessionistas para motivar outros países a levarem, de fato, seus cidadãos às urnas arbitrar sobre o bloco.
Ainda que não signifique o início de um potencial desmonte, há muitos europeus interessados em, ao menos, debater benefícios e potenciais problemas caso seus países decidam deixar a UE.
Pesquisa feita pelo instituto Ipsos Mori com 6.000 pessoas em nove países europeus indicou que 45% dos entrevistados apoiam a ideia de se fazer uma consulta popular em seu próprio país, e um terço disse que votaria para sair do bloco.
A consulta foi feita em março e abril deste ano, e o nível de apoio variou por país.
A maioria dos franceses e italianos ouvidos concordam com um plebiscito. O instituto ouviu ainda cidadãos de Suécia, Espanha, Bélgica, Hungria, Polônia, Alemanha e do próprio Reino Unido.
Além do ceticismo quanto ao bloco, o plebiscito no Reino Unido despertou outro sentimento entre os europeus: o de não ser bem-vindo entre parte dos britânicos.
Cerca de 3 milhões de cidadãos de países-membros do bloco vivem no Reino Unido, e aproximadamente 2 milhões de britânicos estão nos outros 27 países da UE.
O livre trânsito de cidadãos da UE, uma das prerrogativas do bloco, transformou-se em um dos pontos de maior apelo durante a campanha do plebiscito. Favoráveis ao Brexit defendem que os imigrantes sobrecarregam o sistema de saúde, baixam os salários e "roubam" empregos.
Por isso, analistas avaliam que, independentemente do resultado do plebiscito, haverá muitas feridas a curar no Reino Unido após a votação.
Além de dividir os britânicos, a disputa rachou o Partido Conservador e expôs fragilidades do Trabalhista.
Para analistas, a briga dentro das duas principais legendas britânicas, escancarada nas posições divergentes sobre o Brexit, continuará.
Com informações de FERNANDA ODILLA, em Londres.
