Atletismo da Rússia está fora dos Jogos Olímpicos do Rio, afirma BBC
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Na mais rigorosa punição da história do atletismo, o conselho da IAAF (entidade máxima da modalidade) decidiu, nesta sexta-feira (17), deixar a Rússia fora dos Jogos Olímpicos do Rio, em agosto. A informação é da rede britânica BBC e do jornal inglês "The Guardian".
O anúncio oficial será feito em Viena, capital da Áustria, após reunião da cúpula da associação, da qual faz parte o brasileiro Roberto Gesta de Melo.
Trata-se da maior restrição de uma nação em um só esporte em razão de casos sistemáticos de dopagem. A IAAF passou a definir e reconhecer doping em 1928, à ocasião da Olimpíada de Amsterdã. Em Jogos Olímpicos, a primeira edição a ter testes foi em Grenoble-1968, de Inverno, na França.
A Rússia é uma potência olímpica do atletismo. São 77 medalhas conquistadas. Se somadas às da antiga União Soviética, o montante total é superado apenas pelo dos Estados Unidos.
Em novembro passado, uma comissão independente instituída pela Wada (Agência Mundial Antidoping, na sigla em inglês) revelou um amplo esquema estatal de dopagem, centrado principalmente no atletismo.
O sistema, em vigor por anos, envolvia atletas, técnicos, dirigentes médicos, o laboratório certificado pela Wada e até mesmo o serviço secreto do país. O relatório indicou, também, anuência do governo russo, que negou enfaticamente as acusações.
A base da investigação foi um documentário levado ao ar pelo canal alemão ARD, com delação de uma atleta e um ex-funcionário da agência antidoping nacional.
A comissão, que foi chefiada pelo canadense Dick Pound, presidente da própria Wada entre 1999 e 2007, recomendou o banimento preventivo do atletismo russo de todas as competições internacionais até segunda ordem –em reportagem publicada nesta semana, o jornal norte-americano "The New York Times" afirmou que a agência ignorou denúncia de uma competidora do país em 2012.
Por 22 votos a favor e apenas um contra, o conselho da IAAF acatou a recomendação no mesmo mês e, desde então, atletas da Rússia não pôde disputar qualquer evento fora de seu território. Por sua vez, a Wada descredenciou a Rusada (agência nacional antidoping local), por não se mostrar em conformidade com o Código Mundial Antidoping.
"É decepcionante ter um caso como esse em um país da elite esportiva, como a Rússia. Mas é preciso entender a natureza humana. No caso da Rússia, houve uma continuidade da atitude que eles adotaram durante a Guerra Fria, quando existia a União Soviética", afirmou Pound em entrevista à Folha de S.Paulo, em novembro.
A reação foi imediata. Bicampeã olímpica (2004 e 2008), a saltadora com vara Ielena Isinbaieva criticou duramente a suspensão provisória. "Por que esportistas como eu, esportistas limpos, deveriam pagar por aqueles que tiveram práticas desonestas?", indagou em entrevista coletiva à época. Outros atletas de relevo, como o campeão mundial dos 110 m com barreiras, Sergei Chubenkov, aderiram ao coro.
Curiosamente, a saltadora em altura Anna Chicherova, que também se queixou em novembro, caiu no antidoping depois que uma amostra dela, fornecida nos Jogos Olímpicos de Pequim, acabou sendo testada novamente pelo COI (Comitê Olímpico Internacional).
Depois de determinada a suspensão, a IAAF definiu uma série de medidas a serem tomadas pelo governo e pela federação russa de atletismo para que seus atletas pudessem voltar a participar de competições internacionais, incluindo os Jogos do Rio. A equipe já perdeu, entre outros campeonatos, o Mundial indoor de Portland, realizado em março.
A entidade também compôs uma equipe de trabalho para acompanhar a evolução dos trabalhos. Para haver readmissão, a federação russa teria de demonstrar que segue regras internacionais de doping, ser capaz de conduzir seu programa antidoping sem interferências externas e assegurar que a participação de seus atletas não irá afetar a integridade das competições.
No mês de março, esta força-tarefa divulgou um primeiro balanço sobre as iniciativas russas. Apesar de dizer que houve "significativo progresso" para que se cumprissem as demandas, o conselho da IAAF ressalvou que ainda havia muito trabalho por fazer. No fim, decidiu manter a punição
Nesta quinta-feira (16), o ministro do Esporte da Rússia, Vitaly Mutko, disse que o país cumpriu todas as recomendações feitas.
A afirmação, entretanto, contrasta com um novo relatório divulgado pela Wada, baseado em quase 3 mil testes feitos no país entre 18 de novembro passado e 29 de maio deste ano, sob coordenação da IAAF e da UKAD (agência antidoping britânica).
No documento, a Wada relatou que 736 controles tiveram problemas, como inépcia ou intimidação dos oficiais de controle, evasão do local de competição e erros no preenchimento dos formulários de paradeiro. Há relato de que um atleta tentou se infiltrar em sala de controle com uma bolsa contendo urina "limpa". Ainda assim, houve 52 casos positivos.
Representantes da comissão de atletas do Comitê Olímpico da Rússia enviou, recentemente, uma carta ao COI em que pede apoio e clemência aos atletas sem infrações por doping. Eles querem ter chance de disputar os Jogos do Rio.
O COI fará uma reunião na próxima terça-feira (21) para definir critérios de elegibilidade e analisar a situação da Rússia. É o segundo grande revés para o esporte do país por causa do doping em apenas nove dias. No último dia 8, a tenista Maria Sharapova, 29, foi suspensa por dois anos pela Federação Internacional de Tênis devido ao uso da substância meldonium, proibida desde o início do ano.
Ex-número 1 do mundo, vencedora de cinco títulos de Grand Slam, Sharapova afirmou que vai recorrer da decisão na Corte Arbitral do Esporte.
