Nunca vi igual, diz motorista atingido por onda que derrubou ciclovia no Rio
LUCAS VETTORAZZO
RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Toni de Lima, 33, passava pela quinta vez pela avenida Niemeyer naquele feriado de Tiradentes quando uma onda estourou no costão de pedra e avançou sobre o para-brisa do ônibus que ele dirigia. O vidro rachou e um estrondo grande preencheu o ambiente.
Lima se surpreendeu com o barulho e o volume de água que envolveu o veículo e bloqueou a visão do condutor por alguns segundos.
Os cerca de 40 passageiros que viajavam na linha ficaram nervosos, quiseram descer, mas o motorista ainda guiou o veículo por quase 400 metros.
Ele, que tem medo do mar por não saber nadar, continuou a viagem mais alguns metros após o impacto para evitar que uma segunda onda pudesse atingir o ônibus e talvez tombar o veículo.
Em 14 anos trabalhando atrás de um volante, disse nunca imaginar que seu primeiro acidente de trânsito envolveria o mar revolto.
"Eu nunca tinha visto nada como aquilo. Foi tudo muito rápido. Eu ouvi um estrondo muito grande ao mesmo tempo que tudo ficou branco. Os passageiros começaram a gritar como se o mundo fosse acabar", disse.
Ao descrever a cena, o motorista se refere apenas a sua experiência dentro do ônibus. Embora tenha testemunhado a violência com que o mar atingia as pedras, ele não percebeu que um trecho de cerca de 30 metros da ciclovia da Niemeyer desabou, provocando a morte de duas pessoas.
Só soube que foi parte da tragédia que dominou o noticiário do país no feriado quando chegou em casa, horas mais tarde, e viu sua mulher, com quem tem dois filhos pequenos, com a atenção fixa na televisão.
A imagem da câmera do ônibus que Lima conduzia é uma das poucas que mostra o momento exato em que a estrutura construída pela prefeitura ao custo de R$ 44,7 milhões é atingida e entra em colapso.
Lima compreendeu, então, que o "estrondo muito grande" não era o do seu para-brisa rachando e sim o da ciclovia indo abaixo.
"Confesso que depois de assistir aos vídeos pela TV vi que poderia acontecer algo ainda mais grave", disse.
POR ACASO
Lima dirigia por acaso na linha "Integrada 2", cobiçada por fazer a ligação da Barra com Copacabana num trajeto à beira mar. Ele foi colocado ali para cumprir a escala do feriado da última quinta-feira (21)
A Niemeyer faz a ligação entre as orlas do Leblon e São Conrado. A pista costeia a montanha e o trecho é percorrido em via de mão dupla separada de um precipício por um muro de pedra. A ciclovia foi instalada ao lado dessa avenida, suspensa cerca de 30 metros de altura.
Lima nunca se afogou, mas sua relação com o mar é de respeito e receio. Fica na beira quando leva os filhos à praia, programa raro já que mora em Vilar dos Teles, na Baixada Fluminense.
"Acho que se eu morasse perto, talvez pudesse passear por ali. A natureza é inexplicável mesmo. Eu nunca vou até o mar. Dessa vez ele veio até a mim", disse.
A primeira reação do motorista após o impacto foi tirar o ônibus dali. Mesmo depois de embarcar os passageiros em um ônibus da mesma empresa que vinha mais atrás, não voltou ao local da onda.
Ele se ocupou em desencaixar o resto do para-brisa que ficou preso na carcaça do veículo e dirigir até a garagem da empresa para qual dirige, na Freguesia, zona oeste. O motorista, que completaria três viagens de ida e volta naquele dia, interrompeu a última no meio.
As imagens gravadas pela câmera de segurança do ônibus mostram que antes da grande onda avançar sobre seu veículo, uma onda menor encobre parte da pista. Neste momento, Lima freia e espera a água recuar. Quando o ônibus faz uma curva a esquerda, vê-se a explosão de água.
"Meu coração bateu a mil naquela hora. Se pedirem hoje para fazer aquela linha, eu vou dizer que não", disse.
